dimanche 23 octobre 2011

Sobre humor e políticos

A cada dia que passa parece que mais se polemiza a infelicidade no comentário de Rafinha Bastos no último CQC em que ainda estava como apresentador. Vejo com muita freqüência montes de imagens e gente discutindo o assunto em sites como o Facebook e sites de notícia. Mas, afinal, o que causou tanto rebuliço assim?               
Teoricamente, a frase que teria desencadeado tudo isso seria ele se referindo à Wanessa Camargo grávida: “Eu comeria ela e o bebê”. O marido da então cantora teria um certo poder em relação a Band e ameaçou tirar dinheiro que tinha investido ali. O canal tirou imediatamente o humorista do canal e daí surgiram todos esses “movimentos” virtuais criticando ou apoiando Rafinha.
O ponto principal disso tudo não é esse exclusivo comentário relacionado à Wanessa Camargo e seu maridão rico. É óbvio que ele só foi retirado do programa porque tinha muito dinheiro e poder envolvido nisso tudo. As pessoas se esquecem, no entanto, que há algum tempo atrás – papo de alguns meses – estava rolando a Marcha das Vadias em várias partes do mundo. Na de São Paulo os manifestantes terminaram em frente ao prédio da Band com cartazes que já criticavam a postura do apresentador. Por que?
Porque ele disse, basicamente, que mulheres que eram estupradas deveriam agradecer e abraçar seus estupradores uma vez que ele nunca viu mulher bonita dizer que foi estuprada. Ou seja, mulheres feias – por ninguém querer "comê-las" – deveriam agradecer pela violência. Depois ele criticou o movimento de Mamada que as mães estavam fazendo para que se alimentasse durante mais tempo os filhos, uma vez que o leite materno é cientificamente provado excelente para o bebê, podendo ser tomado sem restrições de tempo. Ele afirmou que nunca vê “gostosas” colocando os peitos para fora para alimentar seus bebês, e que achava uma palhaçada a atitude das mulheres da Mamada uma vez que só via mulher “feia” amamentando em público e, com isso, querendo atenção dos homens para seus seios.
Rafinha já mostrou seu caráter machista e desrespeitoso faz tempo e, infelizmente, isso só se repercutiu agora por conta de dinheiro e poder. De qualquer forma, o que ele precisa compreender é que é um formador de opiniões. Se tem um cara, na TV aberta, ao vivo, fazendo brincadeiras com violência às mulheres, machismo, desrespeito e até mesmo pedofilia, por que todos não podemos fazer piadas nesse gênero também?
O que não nos damos conta é que os pensamentos passam de mente para mente numa velocidade assustadora. Você que está lendo esse texto pode ter convicção que nunca vai violentar um bebê ou fazer gracinha com uma menina que foi estuprada. Mas bebês são sexualmente violentados, sim! E meninas, montes delas, bonitas, feias, gordas, magras, brancas, negras, são estupradas, sim! A violência sexual é uma marca que fica na vida toda de uma mulher. Além disso, esse tipo de idéia é levado a sério por inúmeras pessoas. Quando o primeiro aluno entrou em uma faculdade dos EUA para matar seus colegas, apareceram vários outros casos em outras partes do mundo – inclusive no Brasil.
Eu tenho certeza que nem eu nem você entraríamos numa escola com uma arma para matar quem quer que fosse, por mais que a odiássemos, mas temos que encarar a realidade: existem pessoas que o fariam.
Há algum tempo eu costumava me sentir muito mal porque um grupo de conhecidos meus vivia fazendo piadas com coisas como estupro, pedofilia e doenças mentais. Nós só percebemos a importância de um desses assuntos quando conhecemos pessoas que passaram por isso ou nós mesmos somos sujeitos a esse tipo de coisa. A brincadeira perde a linha de forma tão absurda que várias vezes estes mesmos amigos já foram pegos falando o que não deviam para gente que já havia passado pelas mesmas situações (sendo ou com familiares e amigos ou por terem acontecido com eles mesmos).
Sim, queridos leitores, Rafinha Bastos é um humorista e é pago para fazer piadas. Eu admiro programas dele como o “A Liga” onde ele demonstra que se importa em retratar a realidade e melhorar a vida de pessoas carentes, mas isso não exclui o fato de que ele passou, sim, dos limites. Talvez ele nem seja um cara machista, provavelmente ele nem acredita, de verdade, nas “brincadeiras” que faz. Mas Rafinha precisa entender que ele é um formador de opiniões. Ele precisa compreender que esse tipo de piada é algo sério, que fazem as pessoas lembrarem de momentos ruins e se sentirem diminuídas perante a um assunto que as causa tanto mal estar. Rafinha precisa entender que, mesmo que "ao invés de você estar criticando um humorista deveria estar se preocupando com a corrupção no país", nada justifica o seu mal gosto e disseminação de pensamentos machistas, racistas e homofóbicos, mesmo sendo só um humorista e sendo pago para isso.

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