samedi 29 novembre 2014

Délinquance


Cheguei na sala dos professores e um coroa falava, meio puto:
- Esse menino é traficante. Não entendi porque ele está aqui. Fui perguntar e me disseram que foi porque o juiz mandou, que ele estava em observação e precisava estudar. Eu não dou aula pra bandido! Ele não faz nada, fica com fone de ouvido a aula toda. Não quero, não quero, não quero bandido na minha sala.
Ele olhava pra mim de vez em quando. Não disse nada mas também não tirei os olhos dele. Minha cabeça borbulhava. Os outros professores, uma mulher de quarenta anos com um microfone e caixa de som portáteis pendurados na cintura, outro, um senhor de uns sessenta anos que parecia meio nervoso, e o professor que me acompanha - Zé Mauro -, de quase sessenta também, que quando notou minha expressão (ou falta de) e os olhos vidrados, disse logo:
- Acho melhor irmos, né. Não sei se adiantaram a aula da 701.
Levantei. Disse algo como "tudo bem" ou "vamos lá" e saí. O professor que falava do aluno traficante disse, saindo conosco:
- Tá difícil esse ano no colégio... né não, Zé Mauro? Tá difícil esse ano.
Zé Mauro concordou.
Foi só o outro ficar a uns vinte passos a nossa frente que ele me perguntou:
- O que você acha disso? Fico preocupado de você ouvir essas coisas.
Dentro do maravilhoso mundo da academia você pode até escutar umas histórias tensas, mas você nunca acha que vai acontecer com você - não no seu primeiro estágio, antes mesmo de virar professora, pelo menos.
Minha resposta foi:
- Eu acho engraçado. Todo mundo fala em resolver os problemas do país, em acabar com o tráfico... Qual a solução? Se não é ter o menino em sala de aula, o que resolve? Jogar ele em uma cela com outros traficantes, sendo tratado que nem bicho? É diminuir a maioridade penal? É matar? Porque a gente vira professor se, quando aparece o primeiro desafio - talvez a primeira oportunidade de fazer a diferença na vida de alguém - a gente condena, quer fora da nossa sala?
Zé Mauro respondeu, bem calmo:
- Isso tinha que ser resolvido pelo Estado. Lá nos Estados Unidos é assim e dá certo...
Parei de prestar atenção nessa sentença e fiquei concordando: "é, é difícil", sem dar muita atenção.
A escola tá toda errada, os professores ainda acham que "aluno bom é aluno quietinho e disciplinado", que adolescente tem que ficar com a bunda grudada na cadeira e achar super de boa, que traficante tem que ir pro reformatório ao invés de ter uma chance de ver como a educação pode fazer bem pra ele. Eles estão todos cagando, querem pegar o salário (horrível) no final do mês pra ficar reclamando de como o Brasil tá uma merda, de como a educação tá sucateada, os alunos sem respeito... Eles são a educação e não fazem porra nenhuma. A culpa é sempre de outra pessoa.
Perguntei semana passada:
- Você reprova muito?
- Eu não, são os alunos que se reprovam, né
- Hehe - riso nervoso, me segurando para não surtar - Tá, mas você reprova muito?
- Sim. Os alunos não querem nada.
As conclusões que chego com isso? Estou ansiosa para virar professora mas que vai ser foda conviver com esses delinquentes: os próprios professores.

mardi 4 novembre 2014

La haine



Você me irrita
quando beija minha coluna
vértebra por vértebra
me admirando a cada milímetro

Você me corta a carne
quando lambe meus seios
devagar, me faz sangrar
de tão tenro

Você me enche de hematomas
quando me abraça forte
me sufoca até quase
desmaiar

Você comprime minhas vísceras
me rasga sem pudor
quando me olha, de surpresa
e me admira continuamente

Você queima minha derme
me faz chorar de ardência
e me maltrata inteira
de tanto amor

mercredi 24 septembre 2014

Chair de Poule



Eu adoro quando os mamilos ficam rígidos sob a camisa. Quando os pêlos se levantam arrepiados no braço e na nuca. Quando um pequeno calafrio se agita e engrandece por todo o meu corpo. Quando eu sinto o couro cabeludo se mover rapidamente. Eu penso em um milhão de coisas ao mesmo tempo - e em nada, também -, sinto a energia se esvair de mim, as pontas dos dedos tocam a pele. Devagar, suavemente. Quase um orgasmo: silencioso, tranquilo, secreto. No ônibus, na rua ou mesmo enquanto escrevo isso pra você. É meu corpo que diz: você é linda, garota. Você é maravilhosa, deixa eu te tocar, deixe-se curtir.

lundi 4 août 2014

Le[s] coeur[s] brisé[s]





- Quer saber? Que se foda você!
Bateu a porta forte e a deixou do lado de fora. Estava um frio da porra e Maria estava com um casaco de lã, mais nada por baixo. O sangue subiu e não deu pra congelar no corredor mas talvez um choque térmico possa ter acontecido nesse momento; relaxou os músculos do corpo e contraiu os da face. Tudo errado. Sentiu o nariz esquentar como se fosse chorar mas não precisou fazer muito esforço pra que as lágrimas não caíssem. O corpo captou.
Julieta já tinha se trancado no quarto e enfiado a cabeça no travesseiro. Três meses pra isso? Esperou três meses pela notícia - ao vivo - de que estava tudo perdido? Ela tinha se convencido de que já não tinha nenhuma expectativa, mas quando Maria ligou naquele dia de outono dizendo que estava voltando seu coração parou por meio segundo - ela sabe - e algo cresceu nela. O papo não pôde continuar porque ela disse que o tempo estava acabando e não tinha mais moedas para botar no orelhão. Achou normal, afinal ela estava praticamente cruzando o continente de carona com poucos centavos no bolso. A expectativa voltou.
Três meses antes tinha se apaixonado. A primeira vez? Estava com vinte e seis anos e tinha se apaixonado pela primeira vez? Bobagem, é amor de carnaval - pensou. Mas o carnaval durou bastante, durou uma eternidade. Quer dizer, uma eternidade até o momento presente.
Vivia em paz. Estava triste antes disso mas seguia o fluxo da vida, normal. Conhecer Maria chacoalhou suas ideias mas depois que ela partiu pros Estados Unidos - "resolver uns problemas", disse - sabia que não ia dar em nada. Que bobeira, mas no Chile essas coisas não acontecem com muita frequência. Nenhuma, na verdade. Como ela poderia saber como agir?
E Maria voltou, bateu sua porta e disse que, na verdade, "estou só de passagem, vou para Argentina e quem sabe depois Brasil. Mas queria te ver".
"Me ver?!", pensou. "No caralho. Ver o que, garota? Acha que tô aqui de enfeite pra você ficar apreciando quando quiser?". Bateu uma puta insegurança. A insegurança acumulada de todos os três últimos meses. "Eu sei que ela tem outra pessoa. Será homem? Mulher?". Sorte dela que o computador pifou e estava sem grana pra consertar, se não teria descoberto que, sim!, tinha outra pessoa. Outras. Tanto faz agora também.
"Eu pedi pra você não vir se fosse pra ser assim", gritou. Berrou. Urrou. Foda-se, agora já falava mais calma. Engoliu o choro - de raiva - mas não conseguiu evitar de ficar vermelha como um pimentão. Não se achava nada bonita. Chorando? Pior ainda.
"O que ela viu em mim?", murmurou pra si durante todo o tempo de "espera". Quem era ela? Maria era tão incrível, aventureira, companheira, divertida e... bonita. Puxa, como era bonita.
Foda-se, foda-se.
Queria morrer.
Queria só poder ter esquecido aquela semana que passaram juntas - uma única semana! - e que tudo aconteceu pffff... que nem passe de mágica. Estalaram os dedos e ela estava morta de amores. Mas acho que nunca deixou transparecer. Eu sabia, eu estava dentro da cabeça dela, mas não sei se as outras pessoas repararam.
Fazia a durona, se achava muito esperta. Coitada. Esperta nada. Esperta era Maria que já tinha vivido o mundo mesmo sendo mais nova - um ano só, grande coisa - e sabia quando caíam de amores por ela. Julieta caiu. Caiu? Mas nem eu tinha percebido!
Maria foi embora. "Fiz o que tinha que fazer", pensou. Eu acho que pensou. Eu acho que ela estava com o coração partido mas, quem liga? Já tinha partido o coração tantas vezes. Sabia como curá-lo.
E curou em alguns - poucos - dias. Julieta? Não tirou a cara do travesseiro em semanas. Sangrou e morreu ali, pela primeira vez. Quando a dor passou resolveu pôr a mochila nas costas e quebrar outros corações. "Acontece", pensou.
Respirou fundo. Meteu o pé na estrada.

mardi 17 juin 2014

Piqûres



Prefiro o som do vem, não vem
Que o tato móvel, ignóbil
Rêvée que je t'as mangé
a commencer par tes lévres
Les petites piqûres
pour s'adapter
Me tinha em ti
Me embrulhei e até
Sumi

jeudi 1 mai 2014

L'air




Enchi o pulmão e dessa vez consegui soltar o ar. Quase todo, também não dá pra querer tudo de uma vez. Senti um alívio imediato, tirei aquele aperto do peito, consegui sentir meu corpo como meu e só; sou sua única dona.
Não que eu não goste de dividir ele com outras pessoas, mas, acredite ou não, agora que soltei as amarras do ar que me prendiam - assim, por dentro - me sinto mais capaz de me doar.
Só então consigo regular o que entra e o que sai. Escolho o quanto inspiro, o quanto expiro, quando prendo a respiração - e como prendo! -, mas também quando solto com força, desafogando o diafragma e livrando os ombros.
E tudo isso é muito engraçado porque, não sei como, desde que consegui me desamarrar, alguma coisa em mim só atrai felicidade e gratidão. Acho que, com a falta do ar, veio a plenitude da luz: que me integra por dentro e me faz inteira. Dessa vez sem dor nem peso.

mercredi 12 mars 2014

Doute


O sol que queima
invade
e o peso do tempo
nas costas - a melanina -
o fardo, pesado
a cor da folhagem
um suspiro
ambíguo
a passagem do vento
raso
escasso
e o que sobra é dúvida
o embrulho do coração
a revolta da razão
embaralha os sonhos
e o peso, que desgasta
os ombros