samedi 26 juin 2010

Croire


Cuidados com os pedaços de sonho no chão!
Veja bem, eu sei que sou desastrada. Você já deve ter percebido. Mas sabe o que é? A vassoura tá muito longe, eu tô com dor de cabeça, não vou varrer isso agora.
E, não!, não precisa varrer, de forma alguma. Na verdade eu tenho super bonder em algum lugar por aqui, acho que vou tentar colá-los de volta. São bonitinhos até, não são? Assim, preto e branco com esses desenhos abstratos.
Você prefere a cores? Mas meus sonhos não são a cores! Os seus são? Isso é tão esquisito!
Ah, eu sabia que não eram.
Mas talvez o de alguém seja, talvez o de alguém com muito controle mental e espiritual. Talvez de alguém como, não sei, um cachorro talvez. Não!, não!, não quis dizer que cachorros tenham controle mental. Espírito? Espírito nem nós temos! Mas, o que eu estava dizendo?, ah, sim, talvez cor tenha a ver com pureza! Crianças devem sonhar colorido!
É simples não ter espírito. Você acha realmente que depois que você morrer as minhocas não vão se alimentar do seu corpo? Tudo bem que você é bem magrinha e tudo mais, mas elas conseguem tirar uma casquinha desses seus... quanto você mede mesmo? Parece medir uns 1,65, por ai... você tem uma altura ótima, sabia? Queria eu ter essa altura! Odeio ter 1,52! Esse negócio de homens preferirem as baixinhas não tá com nada! E do que me importa mesmo? Eu não gosto de homem! Tirando meu vizinho, o Lucas. Ele é muito bacana, sempre me empresta o isqueiro! Eu gosto dele, só dele... ah!, eu gosto de Caio Fernando Abreu também. Putz! Que homem! Gosto dele. E talvez eu goste um pouquinho do Elvis também, ele era um bom sujeito. Com aquela pancinha e tudo mais, é, é... acho que eu gostava dele.
Mas do que eu tava falando mesmo? Ah! Sobre alma! Minha filha, eu não acredito nisso de alma, espírito, assombração, Deus. Não acredito mesmo! Ih, você é religiosa? Ah, tudo bem então. Eu sempre falo dessas coisas e nem sei se a pessoa acredita ou não nisso. Provavelmente você acredita em alma, todo mundo acredita em alma.. que coisa chata, viu? Não faz sentido nenhum! A alma é o quê? Um gás? Um plasma? Ué, eu só acredito no que é concreto. Vamos lá, nós temos goma, sólido, líquido, gasoso e plasma. E só! Não tem mais nada. Espírito vai ser o que? Sólido? Uma goma? Ia ser bacana ter uma goma dentro de nós. Imagina só! Os médicos abrem para fazer uma operação e... opa!, uma goma! A minha seria verde. Verde é bonito, você não acha? Agora a sua... a sua seria amarela. Não é por causa dessas suas penugens louras, não!, de forma alguma. É porque exala de você amarelo, entende? Amarelo é uma cor bonita, tem a cor da inocência. Ah!, mas seus sonhos são preto e branco... ok, ok... então o que você acha de azul? Azul celeste! Lindo também! Tem tudo a ver com você! Aliás, qual o seu signo, áries? Você tem cara de ariana. Na verdade, agora parando pra reparar você tem um rosto muito bonito! Muito bonito!
Deus! Esqueci seu nome, qual é mesmo? Ih, olha eu falando de Deus de novo... ah! Maria! Belíssimo nome, eu amo Maria! Se um dia eu tiver uma filha o nome dela vai ser Maria. Ou Cecília. Cecília é lindo, não é? É um nome triste. Uma vez conheci uma moça que me disse que os nomes bonitos eram os nomes tristes. E é a pura verdade!
Me desculpe, você só queria uma xícara de açúcar, não é?! Olha como eu sou desastrada! Cortei meu pé com os cacos de sonho!

vendredi 18 juin 2010

Fragmento II


Abelardo não tinha mais olhos. Estava cego.
Abrir as pálpebras era um movimento longo, doentio, escuro.
Afinal, já eram quatro horas da manhã. Quatro horas da manhã de um domingo e ele, no seu quarto escuro, com Maria aos braços.
Ela, com a cabeça deitada em seu peito, sufocando-o. Aliás era exatamente por isso que havia acordado: o ar.
O ar que levitava sob seus ombros com doçura. Maria não era pesada, era leve, por mais dolorosa que fosse.
Tirou-lhe os cabelos do rosto, jogou sua cabeça com delicadeza para o lado e saiu da cama. Cego.
Demorou alguns segundos para voltar a si. Havia misturado tanta coisa no organismo que nem sabia mais dizer o que era o quê. Chegou na cozinha e a luz dilatava suas pequenas pupilas. Cego.
- Acordou?
Ah! Fernando! Fernando não havia ido embora, percebeu com alegria. Mas obviamente não transpareceu nenhuma emoção além do incômodo da luz nos olhos.
- Sim, acordei. Pensei que você iria para casa. – tossiu.
- Prometi que levaria Maria. Como ela apagou, achei melhor ficar por aqui. Espero que não se incomode.
“Eu?! Me incomodar?”, pensou. Era absurdamente claro que não se incomodaria. Aliás, durante três anos não havia se incomodado, por que agora sim?
Passou a mão nos cabelos castanhos, acariciou a própria nuca e olhou para o outro com interesse.
- Você não vai dormir, não?
- Eu tava cochilando no sofá.
- Não, vem dormir conosco. A cama é grande o suficiente.
- Eu sei.
Abelardo teve uma vontade absurda de abraçá-lo. O máximo que conseguiu fazer foi tirar o copo d’água das mãos do outro e levá-lo, tocando na ponta de seus dedos (toque que este considerava o mais obsceno de todos) levou-o até o quarto.
Fernando não tinha muito no que pensar. Mas sua cabeça girava inconstante. Avistou Maria, jogada entre os lençóis e teve vontade de beijar seus olhinhos cansados. Debruçou sob ela e o fez.
Já Abel resolveu que iria acender uma vela, verde.
- Dizem que verde é a cor da esperança.
- Esperança – disse, terminando de beijar os olhos da menina.
Menina sim. Era uma menina. Tinha quinze anos. Parecia ter uns vinte e um, passava uns batons vermelhos cor de sangue. Fernando adorava seus lábios vermelhos, adorava ficar com a boca marcada depois de beijá-la com paixão. Já Abelardo odiava. Achava Maria tão bonita que não precisava de maquiagem para esconder absolutamente nada. Seus olhos, boca, nariz, orelhas e até poros eram lindos!
Na verdade da primeira vez que a viu, pensou que fosse irmã de Fernando. Os dois sempre tão ligados, tão apaixonados. Assim que trocou as primeiras dúzias de palavras com este disse “Veado. É gay, tem que ser”. “Mas eles parecem tão ligados..”, pensou. “Não, é hétero com algum trauma de infância... só pode ser”.
Foi até engraçado relembrar o tempo que se conheceram. Sorriu de canto de boca, bamboleou, andou três passos e caiu ao lado do outro.
- Do que você estava rindo?
- De você.
Fernando passou a mão direita por baixo do pescoço de Maria e o esquerdo pelo peito de Abelardo. Pressionou a mão sob suas costelas. Leveza.
- A cabeça de Maria fazia exatamente essa mesma pressão – lembrou.
- Dói?
- Não, é bom.
Deu-lhe um beijo no nariz e um sopro forte, apagando a vela. Sentiu um pouco do suor de Abel, entre a penugem do peito. Beijou-lhe o queixo e virou a cabeça em frente a sua, deixando a respiração bater em seu rosto.
Permaneceram assim até descobrirem a liberdade.

lundi 14 juin 2010

Bouches

Tambores internos batendo com força. Dava até um arrepio só dela pensar na sua respiração ofegante de tanto correr de um tira com capa de chuva. Seus pés descalços no chão, cheios de lama e cacos de sonhos. As pupilas dilatadas de medo.

- Você esteve aí o tempo todo?
Ele a olhava assustado, como se fosse a última pessoa que ele pensaria encontrar. E ela realmente era.
- Depende do que você chama de "o tempo todo". Só desci pra fumar um tabaco, há uns vinte minutos atrás.
Seus cabelos cobriam os olhos e ela quase não enxergava-o com clareza. Mas não fazia particular questão. Pelo cheiro de sangue e álcool ele com certeza havia se metido com algum policial com capa de chuva.
Ele cuspiu no chão enquanto ela sentava com brusquidão no chão sujo debaixo de um vazio viaduto. Ele coçou os cabelos:
- Então tá. Eu posso te pedir um favor? Tenho que resolver uns problemas e tem uma menina no meu carro esperando - ele enfim parou para respirar - Você sabe como é o carro, né?
- Claro que eu sei - "perdi minha virgindade lá, idiota", pensou. Mas obviamente manteve os cabelos na cara e a fumaça na boca.
- Então, você poderia avisá-la que eu tive que resolver uma coisa?
Assentiu com a cabeça e ele continuou mancando, em direção à escuridão da rua. Obviamente ela não avisou a garota alguma que seu namoradinho teve que fugir por ter sido pego tomando um pico e que, meses depois, estaria debaixo de um viaduto guardando fumaça na boca.

dimanche 13 juin 2010

Femelle



Foda-se a porra da moralidade.

jeudi 3 juin 2010

Fragmento I

Serpentes circulando por meus veios sanguineos. Tudo parece simplesmente rodar vagarosamente por sua mente cheia de ar. Parece que você me deixa nesse estado cabuloso de espírito, como se seus olhos fossem a porta do inferno.

Nesse mesmo dia pequenas falhas foram percebidas por ele no topo da cabeça, como se fossem simples esperanças - em forma de fios de cabelo - que estivessem caindo sob seus ombros, sem poder colocá-los no lugar. Seu hálito cheirava a tabaco roubado e sua alma a verniz. Verniz sim, para protegê-la de pequenas interferências cegas e sem compaixão. Ele ouvia um disco antigo dos Rolling Stones, o mesmo que fala de escravos e amor - e não sentia nada além de tontura. Suas mãos, paradas e desfeitas de um contínuo movimento obsceno. A cada vez que tragava o cigarro com força, isso lhe dava um prazer perdido, incontestável, obsceno.
Ela, pelo contrário, se debruçava contra suas pernas, jogadas no sofá vermelho. Tudo nele simplesmente a encantava - até o simples tragar do cigarro - e fazia disto seus gestos obscenos. Tocou em seus braços com ardor e disse:
- Pára de escutar essa merda.
Ele ofendeu-se e se pôs ereto, vagarosamente, para responder.
- Você está realmente falando mal dos Stones?
Ele se contorcionou num movimento de negação. Na verdade ela gostava dos Stones. Estava apenas censurando-o para acabar com o silêncio mortal entre ambos. Não que silêncio a incomodasse, só queria ver seus lábios abrindo e direcionando-se somente a ela. Ah!, não havia nada demais em seus lábios. Eram finos e umedecidos, com o gosto indecifrável de cigarro. E como ela suportava aquelas lábios. Sentia-se quase uma criança, descobrindo várias vezes exatamente a mesma coisa. Mas como seus gostos, sabores e gestos labiais mudavam com o tempo. Era simplesmente absurdo dizer que toda vez que ela o beijava, ou via-o falar, ou simplesmente encostava em seus lábios era de homens diferentes. Completamente diferentes. Nunca dissera-o isso.
- Você devia ser menos calada. - E agora ele reparava em seus olhos fixos em seus lábios. Lábios que ele havia herdado da mãe: finos, molhados e com cheiro de tabaco. Ele recostou-se no sofá, jogando a cabeça no ombro do mesmo, olhando para o teto, alienado. "Chega de vinho", pensou. E de repente subiu-lhe um enjôo. Olhou novamente para ela, dessa vez de rabo de olho. Percebeu que agora ela olhava para um quadro na parede, que ele mesmo havia feito, ironicamente para outra mulher. Censurou-a com o olhar e o enjôo passou de repente.