lundi 4 août 2014

Le[s] coeur[s] brisé[s]





- Quer saber? Que se foda você!
Bateu a porta forte e a deixou do lado de fora. Estava um frio da porra e Maria estava com um casaco de lã, mais nada por baixo. O sangue subiu e não deu pra congelar no corredor mas talvez um choque térmico possa ter acontecido nesse momento; relaxou os músculos do corpo e contraiu os da face. Tudo errado. Sentiu o nariz esquentar como se fosse chorar mas não precisou fazer muito esforço pra que as lágrimas não caíssem. O corpo captou.
Julieta já tinha se trancado no quarto e enfiado a cabeça no travesseiro. Três meses pra isso? Esperou três meses pela notícia - ao vivo - de que estava tudo perdido? Ela tinha se convencido de que já não tinha nenhuma expectativa, mas quando Maria ligou naquele dia de outono dizendo que estava voltando seu coração parou por meio segundo - ela sabe - e algo cresceu nela. O papo não pôde continuar porque ela disse que o tempo estava acabando e não tinha mais moedas para botar no orelhão. Achou normal, afinal ela estava praticamente cruzando o continente de carona com poucos centavos no bolso. A expectativa voltou.
Três meses antes tinha se apaixonado. A primeira vez? Estava com vinte e seis anos e tinha se apaixonado pela primeira vez? Bobagem, é amor de carnaval - pensou. Mas o carnaval durou bastante, durou uma eternidade. Quer dizer, uma eternidade até o momento presente.
Vivia em paz. Estava triste antes disso mas seguia o fluxo da vida, normal. Conhecer Maria chacoalhou suas ideias mas depois que ela partiu pros Estados Unidos - "resolver uns problemas", disse - sabia que não ia dar em nada. Que bobeira, mas no Chile essas coisas não acontecem com muita frequência. Nenhuma, na verdade. Como ela poderia saber como agir?
E Maria voltou, bateu sua porta e disse que, na verdade, "estou só de passagem, vou para Argentina e quem sabe depois Brasil. Mas queria te ver".
"Me ver?!", pensou. "No caralho. Ver o que, garota? Acha que tô aqui de enfeite pra você ficar apreciando quando quiser?". Bateu uma puta insegurança. A insegurança acumulada de todos os três últimos meses. "Eu sei que ela tem outra pessoa. Será homem? Mulher?". Sorte dela que o computador pifou e estava sem grana pra consertar, se não teria descoberto que, sim!, tinha outra pessoa. Outras. Tanto faz agora também.
"Eu pedi pra você não vir se fosse pra ser assim", gritou. Berrou. Urrou. Foda-se, agora já falava mais calma. Engoliu o choro - de raiva - mas não conseguiu evitar de ficar vermelha como um pimentão. Não se achava nada bonita. Chorando? Pior ainda.
"O que ela viu em mim?", murmurou pra si durante todo o tempo de "espera". Quem era ela? Maria era tão incrível, aventureira, companheira, divertida e... bonita. Puxa, como era bonita.
Foda-se, foda-se.
Queria morrer.
Queria só poder ter esquecido aquela semana que passaram juntas - uma única semana! - e que tudo aconteceu pffff... que nem passe de mágica. Estalaram os dedos e ela estava morta de amores. Mas acho que nunca deixou transparecer. Eu sabia, eu estava dentro da cabeça dela, mas não sei se as outras pessoas repararam.
Fazia a durona, se achava muito esperta. Coitada. Esperta nada. Esperta era Maria que já tinha vivido o mundo mesmo sendo mais nova - um ano só, grande coisa - e sabia quando caíam de amores por ela. Julieta caiu. Caiu? Mas nem eu tinha percebido!
Maria foi embora. "Fiz o que tinha que fazer", pensou. Eu acho que pensou. Eu acho que ela estava com o coração partido mas, quem liga? Já tinha partido o coração tantas vezes. Sabia como curá-lo.
E curou em alguns - poucos - dias. Julieta? Não tirou a cara do travesseiro em semanas. Sangrou e morreu ali, pela primeira vez. Quando a dor passou resolveu pôr a mochila nas costas e quebrar outros corações. "Acontece", pensou.
Respirou fundo. Meteu o pé na estrada.