dimanche 25 septembre 2011

Sobre falta de dedos


Faz algum tempo que, depois de um puta show que fui e dei carona a dois amigos no carro do meu pai, terminou em dor de cabeça. Ao seguirmos alguns metros para deixar a primeira pessoa, esta me abre a porta do carro (a menos de um metro da calçada) sem olhar, quando uma moto passa por esse mesmo espaço mínimo. O que se procedeu foi o dedo da menina, que estava no carona da moto, esmagado.
Eu e meu pai a levamos a um hospital perto, no meio de gemidos dignos de uma cadela no cio e uma velocidade suficiente para posteriores multas de trânsito.
A ficha foi preenchida, a mulher atendida e o motoqueiro e o namorado da “desdedada” chegaram. Fomos embora deixando telefones para algum problema que poderia aparecer depois.
Eis que resolve nos ligar, uma semana depois, a menina sem dedo falando que já havia gastado duzentos reais em medicamentos até o dado momento e exigindo o depósito de alguma quantia para ajudá-la a pagar os remédios.
Meu pai sempre teve um coração de ouro e não poupou esforços para ajudar financeiramente a sem dedo, mesmo não concordando com a atitude da mesma.
Peguei-me pensando nisso hoje e me coloquei na situação dele, imaginando qual seria (e, na verdade, qual é) a minha reação quanto a tudo isso.
Primeiro que lugar de moto não é entre os carros, teoricamente a moto tem que se comportar como um: não pode andar na contramão nem em velocidades superiores a carros, além de ter que ocupar um lugar no transito como se fosse, realmente, um veículo para cinco pessoas. Ok, ninguém respeita isso e é essencial que olhemos para trás ao abrir a porta de um carro, mas isso não significa que, se é porque todo mundo faz, está certo.
Segundo que a menina sem dedo estava absolutamente sem proteção alguma. Nem a porra de um capacete ela tinha na cabeça. Tudo bem, ela pode ser ultra esforçada e fazer faculdade enquanto trabalha a noite, mas, sinceramente, isso é problema dela. Se ela se acha coitada por estar trabalhando, estudando e ser pobre, gostaria que ela sofresse trabalho escravo para ver se ela acha a vidinha dela tão horrível assim.
Terceiro que é muitíssimo corajoso da parte dela ter a cara de pau de pedir ajuda para pagar os medicamentos. O carro não estava no lugar errado, pelo contrário, estava ao lado da calçada, sem espaço para que moto alguma passasse por lá (tanto que a moto, antes do acidente, tinha feito marcas na parte da trás do carro de tão apertado que estava o espaço para passar) e não é obrigação de ninguém de, estando do lado correto, olhar para trás para abrir a porra da porta do carro para descer. Se fosse assim, eu diria: “Minha cara, se você quer ajuda para pagar os seus remédios, eu quero ajuda para pagar as multas que você me fez tomar por causa do seu ataque de vadia histérica sem dedo e pela lavagem que eu tive que fazer na porra do meu carro por causa do chafariz de sangue que jorrou até o teto”.
Logo após o acidente, eu fiquei com pena da garota. Ela é uma coitada, realmente, e se esforça para levar a vida dela. O que me impressiona, no entanto, é a discrepância que existe na educação que, por exemplo, eu e ela temos. Eu, no lugar dela, nunca ligaria para a pessoa no intuito de pedir dinheiro, até porque está claro de que os errados foram o motoqueiro imbecil que estava com ela e a falta de senso de segurança da amputada. Me assusta, simplesmente, essa posição que as pessoas se colocam de mártir e vítimas querendo se aproveitar dos outros em qualquer situação. Nós podíamos muito bem ter arrancado com o carro e deixado o motoboy e a menina sem dedo irem para o hospital e passarem o resto da vida reclamando do quão a humanidade é mesquinha e suja, mas é exatamente pelo fato de sermos pessoas civilizadas que incomodamos os outros. É assustador alguém que se importa com um estranho, o leva para o hospital e dá seu número de telefone para problemas que podem vir a surgir. As pessoas estão tão mal acostumadas com bom senso e generosidade que, quando lhes ocorre, o pensamento principal é sugar tudo o que se pode dessa respectiva pessoa.
A lição que aprendi com isso tudo é que gente como o meu pai está em extinção e que eu perco cada vez mais o respeito pelos seres humanos.

mardi 13 septembre 2011

Dançando na Primavera


Ana Primavera havia feito dezesseis anos naquele ano e, de uma hora para outra, respirava um ar mais leve. Vestia todo verão aquele mesmo vestido amarelo acima dos joelhos e suas sandálias rasteiras mostrando as unhas dos pés pintadas de azul. Tinha olheiras porque acordava cedo para ir à praia e dormia tarde para fazer amor. Amor este que tinha o nome de Samuel da Dança, que no verão continuava usando as calças jeans por ter vergonha da magreza das pernas. E nos pés uns chinelos de cor escura porque de colorida já bastava Ana Primavera.
Samuel da Dança queria pedir seu amor em casamento dali a dois anos. Tinha um coração mole e escrevia poemas desesperados e canções alucinadas à Ana Primavera. Curiosamente esta só mostrava-lhe os dentes perfeitos que se escondiam por toda a carne de sua boca, quando virava os olhinhos e voltava a conversar sobre qualquer coisa. O rapaz esperava um amor tão grande quanto o seu em troca, mas ela só lhe dava beijinhos pescoço acima e instantaneamente tudo ficava gostoso, quase como chocolate em pó de manhã antes da escola.
Certo dia Ana Primavera chegou mais cedo da praia, cheia de areia mas seca, seca.
- Samuel, meu amor, venha cá.
Falou-lhe de tudo. Falou que seus dezoito anos estavam por vir, falou que queria viajar, falou que queria ter filhos em outro país e que queria uma fazenda no interior do Uruguai aos trinta. Falou que queria falar doze línguas, que queria muitos amigos, que queria viajar de avião e comprar um fusca.
Samuel da Dança olhou para ela com toda a candura do mundo.
Foi quando falou-lhe que queria terminar a faculdade de direito, fazer um escritório pequenininho no centro da cidade, ajudar a mãe, morar num sobrado em Santa Teresa e ler o jornal todo dia no café-da-manhã.
- Ana - prosseguiu - o que eu quero dizer é que eu também sonhei tudo isso pra mim. E tudo isso eu quero. E eu quero que tudo que você sonhou pra você também se realize. Mas, minha flor, eu não posso desistir de mim pra me dar pra você porque eu preciso me amar e me cuidar pra amar e cuidar de você. Vai, vai atrás de você mesma que eu te quero livre.
Foi assim que Ana Primavera e Samuel da Dança experimentaram do amor pela primeira vez. Ela dirigindo seu fusca rumo à sua fazenda no Uruguai e ele fechando o escritório para dormir descansado em Santa Teresa.

jeudi 8 septembre 2011

Mais amor, por favor


Não é dificil me pegar aos soluços principalmente em madrugadas de greves escolares. Culpa mais que parcial de todos os documentários, fotos e ilustrações que me aparecem nesse horário morto. Gente morrendo, gente gritando, gente desacreditada, gente com fome, gente sem casa. Muita gente.
São, portanto, as causas dos meus soluços tanta gente e tão poucos olhos para enxergá-las. "Mais amor, por favor", quando você só quer pensar nos seus problemas pessoais e o amor, "por favor", fica só para aquelas pessoas que são inevitáveis não amar.
Pode ainda dar pra vocês, pode ser fácil para o resto do mundo mas pra mim já não é mais. Eu não quero achar a fome natural! Eu  não quero achar a pobreza natural! Eu não quero achar corriqueiro crianças usando drogas e abortando filhos no meio da rua. Eu me recuso. Eu quero paz! Eu quero paz pra essa gente, eu quero paz pro meu coração! Eu quero amor! Amor, por favor!! Eu quero energia positiva o tempo todo e poder ter consciência que o meu mundo é só meu e só faz a diferença pra mim enquanto tem um monte, mas um montão mesmo, de gente que não tem um terço disso, espiritualmente e materialmente.
E esse sentimento de impotência me come por dentro, me abre as entranhas, me dilacera de corpo e alma e é tão pouco amor, é tanta miséria de alma que dói, dói, dói demais. Você pode achar natural, você pode achar corriqueiro e eu queria que realmente fosse, mas eu não consigo achar que é, isso não pode ser normal. E vai me doer, e eu vou soluçar e vai tudo pelo ralo só por que de 'por favor' esse 'amor' não tem nada.