vendredi 28 octobre 2011

Verbe



É absolutamente visível
toda essa particularidade
sua, absurda
e toda essa dor corrosiva
esse medo longínquo
de se encarar de frente

É comparável à minha
talvez auto-crítica física
invisível
inexistente
materialmente,
mas de forma ou outra
existe, dentro,
afundada nas entranhas
relembrada
religiosamente

É compreensível e
até adorável
mas de sentimentalismo
e delicadeza,
o mundo não quer mais
nem ele nem gente
gente assim,
eu,
e é dessa delicadeza morta
desse sentimentalismo falso
de todo esse amor perfeccionista
e essa falta do verbo amar

Porque se fala de amor
se fala de querer e de
gostar
mas não se fala do verbo
amar,
não é proveitoso
não é bonito o suficiente
não é egoísta o bastante
e o amor é esse amor mesquinho
a paixão incandescente
doentia
recalcada
com os olhos nas almas alheias
com a mente nos sorrisos
terceiros
nos montes de mentiras que
sabem todos
sua cruel realidade

Fale comigo do verbo amar
não do amor louco,
fogo,
paixão e
devoção eterna,
diga só que pretende amar-se
sem precisar dizer
que ama mais
ninguém

dimanche 23 octobre 2011

Sobre humor e políticos

A cada dia que passa parece que mais se polemiza a infelicidade no comentário de Rafinha Bastos no último CQC em que ainda estava como apresentador. Vejo com muita freqüência montes de imagens e gente discutindo o assunto em sites como o Facebook e sites de notícia. Mas, afinal, o que causou tanto rebuliço assim?               
Teoricamente, a frase que teria desencadeado tudo isso seria ele se referindo à Wanessa Camargo grávida: “Eu comeria ela e o bebê”. O marido da então cantora teria um certo poder em relação a Band e ameaçou tirar dinheiro que tinha investido ali. O canal tirou imediatamente o humorista do canal e daí surgiram todos esses “movimentos” virtuais criticando ou apoiando Rafinha.
O ponto principal disso tudo não é esse exclusivo comentário relacionado à Wanessa Camargo e seu maridão rico. É óbvio que ele só foi retirado do programa porque tinha muito dinheiro e poder envolvido nisso tudo. As pessoas se esquecem, no entanto, que há algum tempo atrás – papo de alguns meses – estava rolando a Marcha das Vadias em várias partes do mundo. Na de São Paulo os manifestantes terminaram em frente ao prédio da Band com cartazes que já criticavam a postura do apresentador. Por que?
Porque ele disse, basicamente, que mulheres que eram estupradas deveriam agradecer e abraçar seus estupradores uma vez que ele nunca viu mulher bonita dizer que foi estuprada. Ou seja, mulheres feias – por ninguém querer "comê-las" – deveriam agradecer pela violência. Depois ele criticou o movimento de Mamada que as mães estavam fazendo para que se alimentasse durante mais tempo os filhos, uma vez que o leite materno é cientificamente provado excelente para o bebê, podendo ser tomado sem restrições de tempo. Ele afirmou que nunca vê “gostosas” colocando os peitos para fora para alimentar seus bebês, e que achava uma palhaçada a atitude das mulheres da Mamada uma vez que só via mulher “feia” amamentando em público e, com isso, querendo atenção dos homens para seus seios.
Rafinha já mostrou seu caráter machista e desrespeitoso faz tempo e, infelizmente, isso só se repercutiu agora por conta de dinheiro e poder. De qualquer forma, o que ele precisa compreender é que é um formador de opiniões. Se tem um cara, na TV aberta, ao vivo, fazendo brincadeiras com violência às mulheres, machismo, desrespeito e até mesmo pedofilia, por que todos não podemos fazer piadas nesse gênero também?
O que não nos damos conta é que os pensamentos passam de mente para mente numa velocidade assustadora. Você que está lendo esse texto pode ter convicção que nunca vai violentar um bebê ou fazer gracinha com uma menina que foi estuprada. Mas bebês são sexualmente violentados, sim! E meninas, montes delas, bonitas, feias, gordas, magras, brancas, negras, são estupradas, sim! A violência sexual é uma marca que fica na vida toda de uma mulher. Além disso, esse tipo de idéia é levado a sério por inúmeras pessoas. Quando o primeiro aluno entrou em uma faculdade dos EUA para matar seus colegas, apareceram vários outros casos em outras partes do mundo – inclusive no Brasil.
Eu tenho certeza que nem eu nem você entraríamos numa escola com uma arma para matar quem quer que fosse, por mais que a odiássemos, mas temos que encarar a realidade: existem pessoas que o fariam.
Há algum tempo eu costumava me sentir muito mal porque um grupo de conhecidos meus vivia fazendo piadas com coisas como estupro, pedofilia e doenças mentais. Nós só percebemos a importância de um desses assuntos quando conhecemos pessoas que passaram por isso ou nós mesmos somos sujeitos a esse tipo de coisa. A brincadeira perde a linha de forma tão absurda que várias vezes estes mesmos amigos já foram pegos falando o que não deviam para gente que já havia passado pelas mesmas situações (sendo ou com familiares e amigos ou por terem acontecido com eles mesmos).
Sim, queridos leitores, Rafinha Bastos é um humorista e é pago para fazer piadas. Eu admiro programas dele como o “A Liga” onde ele demonstra que se importa em retratar a realidade e melhorar a vida de pessoas carentes, mas isso não exclui o fato de que ele passou, sim, dos limites. Talvez ele nem seja um cara machista, provavelmente ele nem acredita, de verdade, nas “brincadeiras” que faz. Mas Rafinha precisa entender que ele é um formador de opiniões. Ele precisa compreender que esse tipo de piada é algo sério, que fazem as pessoas lembrarem de momentos ruins e se sentirem diminuídas perante a um assunto que as causa tanto mal estar. Rafinha precisa entender que, mesmo que "ao invés de você estar criticando um humorista deveria estar se preocupando com a corrupção no país", nada justifica o seu mal gosto e disseminação de pensamentos machistas, racistas e homofóbicos, mesmo sendo só um humorista e sendo pago para isso.

vendredi 14 octobre 2011

Prendre soin de soi



Às vezes é impressionante o quanto a vida muda em questão de segundos. Um segundo você está voltando pra casa de moto, no outro está sem um dedo. Um segundo você está trepando, no outro está grávida. Um segundo você está sóbrio, no outro entrando em coma alcoólico. Talvez as decisões mais importantes da vida sejam tomadas em segundos: é o "não, vou respeitar a sinalização" ou o "não, querido, se não tem camisinha a gente deixa pra lá" ou até o "parei de beber, já foram três cascos". E não adianta o pensamento "pós-merda" do tipo "ah, mas eu pensei em fazer isso", "poxa, mas eu quis agir dessa forma", "não, é que estavam forçando muito a barra" porque depois não tem mais volta.
Fico impressionada com o quanto decisões sérias são vistas como desnecessárias em várias ocasiões. Afinal, é chato pra caralho ficar colocando capacete e demorar mais tempo pra chegar em casa por conta da sinalização correta, ou esperar o momento broxante de pôr a camisinha ou ver todo mundo bebendo sendo que você já está bêbado na primeira hora de botequim. Mas todo mundo já sabe de cor de salteado que é, sim, necessário.
Isso pode estar sendo papo de mãe chata e super protetora, mas cada vez eu me espanto mais com o descuido das pessoas. O problema é que precisamos passar por situações desagradáveis para aprendermos a tomar conta de nós mesmos. Eu mesma só aprendi a atravessar no sinal, respeitar a sinalização e olhar nas frestinhas entre os carros porque presenciei um acidente perturbador do meu lado - que poderia ter sido comigo!
Por favor, cuidem-se. Não é pra viver trancado em casa com cães de guarda, mas prezem por seu bem estar físico e mental. Porque depois não adianta ficar "ah, mas eu pensei em não fazer", "po, eu sabia que era errado" pois já vai ser tarde demais.

dimanche 25 septembre 2011

Sobre falta de dedos


Faz algum tempo que, depois de um puta show que fui e dei carona a dois amigos no carro do meu pai, terminou em dor de cabeça. Ao seguirmos alguns metros para deixar a primeira pessoa, esta me abre a porta do carro (a menos de um metro da calçada) sem olhar, quando uma moto passa por esse mesmo espaço mínimo. O que se procedeu foi o dedo da menina, que estava no carona da moto, esmagado.
Eu e meu pai a levamos a um hospital perto, no meio de gemidos dignos de uma cadela no cio e uma velocidade suficiente para posteriores multas de trânsito.
A ficha foi preenchida, a mulher atendida e o motoqueiro e o namorado da “desdedada” chegaram. Fomos embora deixando telefones para algum problema que poderia aparecer depois.
Eis que resolve nos ligar, uma semana depois, a menina sem dedo falando que já havia gastado duzentos reais em medicamentos até o dado momento e exigindo o depósito de alguma quantia para ajudá-la a pagar os remédios.
Meu pai sempre teve um coração de ouro e não poupou esforços para ajudar financeiramente a sem dedo, mesmo não concordando com a atitude da mesma.
Peguei-me pensando nisso hoje e me coloquei na situação dele, imaginando qual seria (e, na verdade, qual é) a minha reação quanto a tudo isso.
Primeiro que lugar de moto não é entre os carros, teoricamente a moto tem que se comportar como um: não pode andar na contramão nem em velocidades superiores a carros, além de ter que ocupar um lugar no transito como se fosse, realmente, um veículo para cinco pessoas. Ok, ninguém respeita isso e é essencial que olhemos para trás ao abrir a porta de um carro, mas isso não significa que, se é porque todo mundo faz, está certo.
Segundo que a menina sem dedo estava absolutamente sem proteção alguma. Nem a porra de um capacete ela tinha na cabeça. Tudo bem, ela pode ser ultra esforçada e fazer faculdade enquanto trabalha a noite, mas, sinceramente, isso é problema dela. Se ela se acha coitada por estar trabalhando, estudando e ser pobre, gostaria que ela sofresse trabalho escravo para ver se ela acha a vidinha dela tão horrível assim.
Terceiro que é muitíssimo corajoso da parte dela ter a cara de pau de pedir ajuda para pagar os medicamentos. O carro não estava no lugar errado, pelo contrário, estava ao lado da calçada, sem espaço para que moto alguma passasse por lá (tanto que a moto, antes do acidente, tinha feito marcas na parte da trás do carro de tão apertado que estava o espaço para passar) e não é obrigação de ninguém de, estando do lado correto, olhar para trás para abrir a porra da porta do carro para descer. Se fosse assim, eu diria: “Minha cara, se você quer ajuda para pagar os seus remédios, eu quero ajuda para pagar as multas que você me fez tomar por causa do seu ataque de vadia histérica sem dedo e pela lavagem que eu tive que fazer na porra do meu carro por causa do chafariz de sangue que jorrou até o teto”.
Logo após o acidente, eu fiquei com pena da garota. Ela é uma coitada, realmente, e se esforça para levar a vida dela. O que me impressiona, no entanto, é a discrepância que existe na educação que, por exemplo, eu e ela temos. Eu, no lugar dela, nunca ligaria para a pessoa no intuito de pedir dinheiro, até porque está claro de que os errados foram o motoqueiro imbecil que estava com ela e a falta de senso de segurança da amputada. Me assusta, simplesmente, essa posição que as pessoas se colocam de mártir e vítimas querendo se aproveitar dos outros em qualquer situação. Nós podíamos muito bem ter arrancado com o carro e deixado o motoboy e a menina sem dedo irem para o hospital e passarem o resto da vida reclamando do quão a humanidade é mesquinha e suja, mas é exatamente pelo fato de sermos pessoas civilizadas que incomodamos os outros. É assustador alguém que se importa com um estranho, o leva para o hospital e dá seu número de telefone para problemas que podem vir a surgir. As pessoas estão tão mal acostumadas com bom senso e generosidade que, quando lhes ocorre, o pensamento principal é sugar tudo o que se pode dessa respectiva pessoa.
A lição que aprendi com isso tudo é que gente como o meu pai está em extinção e que eu perco cada vez mais o respeito pelos seres humanos.

mardi 13 septembre 2011

Dançando na Primavera


Ana Primavera havia feito dezesseis anos naquele ano e, de uma hora para outra, respirava um ar mais leve. Vestia todo verão aquele mesmo vestido amarelo acima dos joelhos e suas sandálias rasteiras mostrando as unhas dos pés pintadas de azul. Tinha olheiras porque acordava cedo para ir à praia e dormia tarde para fazer amor. Amor este que tinha o nome de Samuel da Dança, que no verão continuava usando as calças jeans por ter vergonha da magreza das pernas. E nos pés uns chinelos de cor escura porque de colorida já bastava Ana Primavera.
Samuel da Dança queria pedir seu amor em casamento dali a dois anos. Tinha um coração mole e escrevia poemas desesperados e canções alucinadas à Ana Primavera. Curiosamente esta só mostrava-lhe os dentes perfeitos que se escondiam por toda a carne de sua boca, quando virava os olhinhos e voltava a conversar sobre qualquer coisa. O rapaz esperava um amor tão grande quanto o seu em troca, mas ela só lhe dava beijinhos pescoço acima e instantaneamente tudo ficava gostoso, quase como chocolate em pó de manhã antes da escola.
Certo dia Ana Primavera chegou mais cedo da praia, cheia de areia mas seca, seca.
- Samuel, meu amor, venha cá.
Falou-lhe de tudo. Falou que seus dezoito anos estavam por vir, falou que queria viajar, falou que queria ter filhos em outro país e que queria uma fazenda no interior do Uruguai aos trinta. Falou que queria falar doze línguas, que queria muitos amigos, que queria viajar de avião e comprar um fusca.
Samuel da Dança olhou para ela com toda a candura do mundo.
Foi quando falou-lhe que queria terminar a faculdade de direito, fazer um escritório pequenininho no centro da cidade, ajudar a mãe, morar num sobrado em Santa Teresa e ler o jornal todo dia no café-da-manhã.
- Ana - prosseguiu - o que eu quero dizer é que eu também sonhei tudo isso pra mim. E tudo isso eu quero. E eu quero que tudo que você sonhou pra você também se realize. Mas, minha flor, eu não posso desistir de mim pra me dar pra você porque eu preciso me amar e me cuidar pra amar e cuidar de você. Vai, vai atrás de você mesma que eu te quero livre.
Foi assim que Ana Primavera e Samuel da Dança experimentaram do amor pela primeira vez. Ela dirigindo seu fusca rumo à sua fazenda no Uruguai e ele fechando o escritório para dormir descansado em Santa Teresa.

jeudi 8 septembre 2011

Mais amor, por favor


Não é dificil me pegar aos soluços principalmente em madrugadas de greves escolares. Culpa mais que parcial de todos os documentários, fotos e ilustrações que me aparecem nesse horário morto. Gente morrendo, gente gritando, gente desacreditada, gente com fome, gente sem casa. Muita gente.
São, portanto, as causas dos meus soluços tanta gente e tão poucos olhos para enxergá-las. "Mais amor, por favor", quando você só quer pensar nos seus problemas pessoais e o amor, "por favor", fica só para aquelas pessoas que são inevitáveis não amar.
Pode ainda dar pra vocês, pode ser fácil para o resto do mundo mas pra mim já não é mais. Eu não quero achar a fome natural! Eu  não quero achar a pobreza natural! Eu não quero achar corriqueiro crianças usando drogas e abortando filhos no meio da rua. Eu me recuso. Eu quero paz! Eu quero paz pra essa gente, eu quero paz pro meu coração! Eu quero amor! Amor, por favor!! Eu quero energia positiva o tempo todo e poder ter consciência que o meu mundo é só meu e só faz a diferença pra mim enquanto tem um monte, mas um montão mesmo, de gente que não tem um terço disso, espiritualmente e materialmente.
E esse sentimento de impotência me come por dentro, me abre as entranhas, me dilacera de corpo e alma e é tão pouco amor, é tanta miséria de alma que dói, dói, dói demais. Você pode achar natural, você pode achar corriqueiro e eu queria que realmente fosse, mas eu não consigo achar que é, isso não pode ser normal. E vai me doer, e eu vou soluçar e vai tudo pelo ralo só por que de 'por favor' esse 'amor' não tem nada.

lundi 22 août 2011

O Destino Desfolhou



Em memória de
Tânia Beatriz Pacheco Pinto.
E para
Fanny Abramovich,
que me fez lembrar.

“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”
(Adélia Prado: O Coração Disparado)



"VÊNUS.

HÁ seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.
Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.
Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe - sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde-musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:
- Beatriz.
A mãe riu, jogou para trás os cabelos - uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão - e disse assim:
- Credo, aquela estrelete?
Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão numa das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.
Estrelete estrelete estrelete estrelete - repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora em que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela D’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.

CENAS

A outra cena acontecia num dos festivais de fim de ano do Grupo Escolar, no Cine Cruzeiro do Sul.
Ele estava na platéia, porque não sabia cantar nem dançar nem declamar, nem nada que os outros pudessem sentar e aplaudir - como ele sentava e aplaudia agora. Então Beatriz entrava no palco com um vestido branco repolhudo, sentava numa cadeira e a professora-apresentadora colocava um acordeom nos braços dela. Embora alta demais para a idade, Beatriz quase desaparecia no palco do cinema, atrás daquele enorme acordeom. Dava só para ver o rosto pálido, sério, a franja lisa acima do instrumento, as pernas compridas abaixo, tão finas que os carpins de renda desabavam sobre os sapatos de verniz preto e presilha. As duas mãos de unhas roídas, nas teclas.
Então, acontecia. Na memória, anos depois, tinha a impressão de que havia um silêncio pouco antes dela começar. Um silêncio precedendo o brilho. Talvez não, só fantasias.
De repente, logo após esse silêncio incerto, os dedos de unhas roídas de Beatriz começavam a mover-se sobre as teclas. Do acordeom e da voz dela, uma voz fina de vidro, agulha, espinho, brotava aos poucos uma valsinha chamada O Destino Desfolhou. O-nosso-amor-traduzia-felicidade-e-afeição, ele lembraria, suprema-glória-que-um-dia-tive-ao-alcance-da-mão. O coração bateu mais forte. Como quando soltara o balão, de tardezinha, atrás do taquaral. E alguma coisa brilhou no ar entre vermelho e roxo do entardecer, no meio das paredes descascadas do Cine Cruzeiro do Sul. Era tudo: cenas.
Depois dessa, havia outras.
Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Colava de Beatriz, em Aritmética. Ela colava dele, em Linguagem. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.
Sábado não tinha Beatriz. Mas domingo, vezenquando, na missa das dez, novamente ela aparecia, ao lado da mãe. Dona Lucy não usava saias de veludo nem tinha cabelos dourados: era viúva, vestia preto, cabelos presos num coque, rosário na mão. Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.

A SEPARAÇÃO

De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo. E quando começaram o ginásio houve: A Separação. Ele foi para o colégio Estadual, ela para o colégio das Freiras. Depois das férias grandes, pelas manhãs, num fim de verão, não havia mais Beatriz.
Aos domingos, sim, tinha Beatriz na matinê das quatro. Sem dona Lucy. Havia agora Betinha, Aureluce, Tanara e outras amigas barulhentas em volta, uma fila inteira delas no Cine Cruzeiro do Sul. Com blusinhas de banlon e risadinhas, pipocas e barulho de papel de bala amassado justo na hora em que Johnny Weissmuller ia cair nas mãos dos pigmeus canibais. Areias movediças, caçadores de cabeça, dardos fatais. Odiava todas as gurias: gasguitas gasguitas. Menos ela. Quando retardava ou apressava o passo para cruzá-la na saída, ruborizava um pouco, dizia ó-h! cumprimentando - e apressava o passo de novo, para afastar-se logo e levá-la por dentro, perdoando tudo.
Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo-de-cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro. Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pêlos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um.
Nessa época, começaram os boatos. A filha da Lucy, diziam, mas mudavam logo de assunto quando ele se aproximava. Que horror, ainda conseguia ouvir, que tragédia. Primeiro o marido, agora a filha. Coitadinha, nem quinze anos. Aprendeu a maneira de ouvir sem ser visto. Na sombra, atrás da porta.
Até surpreender, um dia, a palavra nova: leucemia. No dicionário, encontrou. Mas não conseguiu entender direito. Glóbulos, era bonito, redondo. Parecia pétala, sânscrito, dádiva: gló-bu-los. Brancos, excesso. Mata? perguntou no colégio. Disseram que sim. Em pouco tempo.

A URGÊNCIA

Então baixou a pressa.
Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.
- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.
Ele disse que sim.
De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.
- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.
Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era. Antes de ir embora, ainda falou:
- Olha bem para o pescoço dela. Tem uns caroços aqui, assim, inchados. Aquilo é a doença.
Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:
- Beatriz, quero namorar contigo.
Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:
- Tu é muito criança - disse.
Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.
- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.
- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu. Os gânglios inchados quase desapareciam assim. Gân-gli-os, repetiu mentalmente, essa palavra que quase não conhecia.
Espantado, percebeu que Beatriz usava batom. Batom clarinho, mal se notava. Parecia tão divertida e distante que aquela coisa densa, meio suja, dentro dele começou a se contorcer feito quisesse sair para fora. Cobra armando o bote, vômito armado na garganta. Ainda tentava controlá-la, quando insistiu:
- Eu gosto de ti, Beatriz. Eu gosto muito de ti. Eu gosto tanto de ti.
- Pois eu não - ela abaixou os olhos, procurando os dele. Quando encontrou, falou quase sorrindo, como quem dá uma coisa doce, não como quem enfia uma faca afiada: - Gosto só como amigo.
- Como amigo, não me interessa - gemeu.
Devia ser março, porque o sol era tão quente que fazia gotas de suor escorrerem entre as espinhas da cara dele até o lábio superior, onde aquele pêlos escuros começavam a se adensar. Sua cara de macho em preparação devia estar nojenta como a de um bicho. Mais tarde, bem mais tarde, se lhe perguntassem, mas ninguém saberia, poderia explicar que não tinha tido culpa. Foi aquela coisa suja de dentro que subiu descontrolada garganta acima, para atravessar a língua e os dentes até arredondar-se de repente na pergunta cruel que jogou no ar morno de meio-dia (e Sol na X, era o destino):
- Beatriz, tu sabe que vai morrer?
Ela levantou. Nem pálida, nem lágrimas nos olhos. Remota, fatídica. Ele levantou também. Só então percebeu que, além do batom, ela usava sapatos de saltinho que a faziam quase dois palmos mais alta que ele. Por trás dela, podia ver a torre da igreja. Talvez uma ou duas palmeiras. A caixa d’água ao longe, muito alta. O sino começou a bater. Beatriz virou as costas e saiu caminhando, pescoço erguido, o livro de História apertado contra os seios tão empinados que, num último golpe, percebeu: além do batom e dos saltinhos, Beatriz também usava sutiã.
Beatriz era uma mulher. E ia morrer

A PARTIDA

Volta, quis dizer, parado no meio da praça.
Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca. Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.

AH, DINDI...

O tempo passou, depois disso, mais um pouco. Um, dois anos em que, além de para dentro, ele começou a crescer igual aos outros: em todas as direções. Aqueles pêlos finos engrossaram sobre o lábio superior, outros surgiram, escureceram curvas, reentrâncias. As espinhas desapareceram, a voz definiu-se. Aquela coisa densa de dentro transformou-se numa espécie de leite espesso que descobriu o jeito de puxar para fora, com movimentos da mão e estremecimentos do corpo. Na cama ao lado, Toninho repetia:
- Vai criar cabelo na palma da mão. Vai ficar tuberculoso desse jeito. Se quiser, um dia me fala, te levo na zona. Ou vai sozinho, chega na Morocha e diz que é meu irmão, ela já sabe.
Foram esses os anos em que Beatriz foi embora. Para a capital, para se tratar, diziam.
Isso depois de uma fase em que ela trocou aquele batom rosa clarinho por outro vermelho, muito forte, aqueles saltos baixos por outros altíssimos, e decotes fundos, costas de fora, saias curtas, pernas cruzadas no clube, risadas estridentes na rua, cigarros e rosas de ruge nas faces cada vez mais brancas. De mão em mão, Beatriz passou. Pelas mãos de Cacá, que na aula de Educação Física abaixava o calção para mostrar o pau, o maior do colégio, quem quisesse ver. Ou pegar, alguns pegavam. Pelas mãos de Mauro, que tinha cabelo no peito e encestava bola no basquete como ninguém. E Luizão e Pancho e Caramujo e Bira e tantos outros que nem lembrava direito o nome, a cara, divulgando pelas esquinas, pela sinuca, pela praça ou matinê: ela faz de tudo, só chegar e meter a mão, dá pra qualquer um - uma percanha.
Com ele, quase nada aconteceu, além de uma tentativa desastrada de namorar Betinha, depois que Beatriz se foi. Mas só perguntava por ela, até que um dia Betinha encheu, foi namorar Luizão, que tinha uma lambreta. Quase nada além daquele corpo crescendo em direções imprevistas, de um B gótico desenhado em segredo e carinho nas folhas finais dos cadernos, principalmente os de Geografia, quando tentava decorar as capitais - Suíça, capital Berna; Polônia, capital Varsóvia; Honduras, capital Te-gu-ci-gal-pa - e a cada nome estranho repetia e repetia, morto de saudade: para lá, então, para lá, Beatriz, quem sabe - vamos?
Aprendeu a dirigir o Simca Chambord branco forrado de vermelho do pai. Mas Passo da Guanxuma acabava logo: só restavam quatro estradas de terra vermelha poeirenta batida, perdidas até o horizonte. Precisou professor particular de Matemática. Ficou para segunda época em Latim, não conseguia passar da primeira declinação, terra, terrae, terram. Escreveu sonetos de pé quebrado, sem parar ouviu Silvinha Telles num compacto cantando ah-Dindi-se-soubesses-o-bemque-eu-te-quero-o-mundo-seria-Dindi-lindo-Dindi...
Até aquele dia.

MARTE

Era sempre verão quando alguma coisa acontecia. Talvez porque no verão as pessoas tiravam cadeiras para fora de casa e, pelas calçadas, olhando estrelas, falavam de tudo que não costumavam falar durante o dia. Ele tinha aprendido o jeito de se confundir com as sombras, sem que o notassem. Tinha-se tornado uma sombra à espreita do que nunca era dito claramente, à beira do momento em que não haveria mais nenhum segredo a descobrir e a vida, então, se tornasse crua e visível, por tê-la tocado ele mesmo, não por ouvir dizer.
Frase após frase, ficou ouvindo:
- E a filha da Lucy, tu já soube?
- Quem, a Beatriz?
- E a Lucy tinha outra filha, criatura?
Perguntei por perguntar. Que aconteceu?
- Pois diz que morreu, em Porto Alegre.
- Mas não me conta, criatura. Quando?
- Ontem, tresantontem. Não sei direito. Vão enterrar lá mesmo.
- Que barbaridade Tão novinha.
- Pois é. Mas uma perdida. Não tinha nem dezesseis anos.
- Um guria bonitinha. Meio espevitada, mas jeitosinha.
- Diz que morreu grávida.
- Pelo amor de Deus, não me conta.
- Que sabia que ia morrer. Aí deu um desgosto, emputeceu de repente.
- Mas quem era o pai?
- Deus é que sabe. Só aqui no Paço, retoçou com todos. O Cacá da Zulma, o Luizão da Lia, o Eira do Otaviano. Fora os de lá, que ninguém sabe.
- Que coisa de louco.
- Diz que a cabeça rachou toda antes de morrer.
- Como, rachou?
- Pois rachou, ué. Que nem porongo no sol. A tal da doença.
- Mas a pobre da Lucy. Primeiro o marido, depois a filha.
- Cada vivente com a sua sina.
- A pobre da Beatriz.
- Que Deus a tenha.
- Escuta, teu filho não tinha um rabicho por ela?
- Tinha? (Tanto tempo hoje, a garrafa de vinho quase vazia e a voz travada de Marjanne Faithfull cantando As Tears Goes By, tantas dores novas, e tão inesperadas, tivesse visto de lá, naquele tempo, com aqueles olhos que nunca mais teria.) Tinha tido mesmo - tão grosseiro, como se diz? - um rabicho por Beatriz? Não sabia responder direito.
Deve ter olhado para cima e visto a estrela vermelha (seria Marte?) que naquele verão costumava brilhar justamente sobre a casa da Morocha. Teve um impulso, coice no peito, suor na testa. Mas esperou que o assunto mudasse, virando página após página de O Cruzeiro, jogado no sofá-cama da sala. David Nasser, disco voador, Márcia e Maristela, candangos, Odete Lara, coisas assim. Só depois de ter remanchado horas pela casa - outra vez então aquela coisa grossa, aquela coisa porca, aquela coisa furiosa dando voltas dentro dele - resolveu emergir devagarinho das sombras para a luz do poste sobre as pessoas sentadas na calçada.
E visto assim, à luz do poste, dos cigarros, vaga-lumes e estrelas, camisa aberta ao peito, as duas mãos enfiadas fundo nos bolsos, parecia tão seguro e decidido que ninguém teria coragem de negar absolutamente nada quando pediu:
- Pai, me empresta o auto?

POEIRA

Deu a partida e enveredou pelos barrancos em direção à casa da Morocha. Alto do chão.
- El hermano de Tonico? - ela perguntou, oferecendo a cuja de mate novo, dente de ouro na frente. - Entonces, eres tu? Bién que él me tenha hablado, muy guapo.
Os anéis cintilaram quando ela abriu a porta para que ele penetrasse no interior enfumaçado. Já estavam lá, ou chegariam depois, não lembrava, o Caramujo, o Pancho, o Bira e talvez um ou outro daqueles bagaceiras todos que tinham tocado em Beatriz. Não falou com ninguém. Sentou sozinho numa mesa, pediu um maço de Hudson com ponta, uma cerveja. Antes que pedisse a segunda, uma loira meio velha, olhos verdes e falha num dente, pediu licença para sentar com ele. Usava saia justa de veludo de cor viva, de que nunca mais conseguiu lembrar a cor exata, embora tivesse certeza de que não era verde-musgo nem azul-marinho.
Na manhã seguinte, quando Toninho aos berros finalmente conseguiu acordá-lo, lembrava apenas de ter pedido para ouvir O Destino Desfolhou, depois de uma vomitada espetacular bem no meio da sala. Mais que tudo, das pernas escancaradas de uma loira meio velha numa cama de lençóis com cheiro estranho. O resto, névoa opaca, gosto de palha na boca.
Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo.
Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende."



Caio F. Abreu

mercredi 3 août 2011

Ne parles pas d'amour


Eu não sei falar de amor.

samedi 2 juillet 2011

Faiblesse


 Tudo que me lembro do meu terceiro amor é que ela sempre escorregava por meus dedos. Geralmente eu a segurava com força por já saber de seus dotes flúidos, mas ela sempre me escapava cada vez mais agilmente.
Como quando nos pegávamos em momentos de maior interação e ela me comprimia com aquele peso insuportável e invisível de sua alma, e eu apenas com o fraco da minha carne tentava esmagá-la com significativo ardor e culpa de ser tão leve para o seu corpo frágil.
A amei, principalmente, por seu silêncio sepulcral nas horas que eu menos precisava. Ela sabia que enterrando palavras meus ouvidos a dentro não ia adiantar de nada. Eu só queria enroscar minha carne na alma dela.

14/05

jeudi 23 juin 2011

Erreurs



Sabe, eu sempre fui muito mãezona e moralista. Sempre fui muito apegada aos meus princípios. Aí, subitamente, vem você e eu penso "ah, só mais um pra eu ter que tomar conta" e, realmente, eu tomei uma ou duas vezes. Mas toda aquela moral simplesmente sumiu e quando eu vi eu estava com metade da minha idade e enroscada nos seus braços e fazendo um monte de besteiras e dizendo um monte de besteira e sendo uma grande besteira. E, ah, como eu pude amar no meio de tantos erros e tanta tolerância da sua parte. E como eu me sinto inteira e envolvida nessa euforia apaixonante e como tudo isso me realiza de forma completamente nova e deliciosa!
E escorre dos meus poros todo esse amor, meio negado ainda, por você. Eu só quero você muito porque descobri que o amor, o amor de verdade, faz você ter oito anos de novo e ficar tão deslumbrado que só o que é possível é fazer besteira o tempo todo na tentativa desesperada de entender como cabe tanto sentimento dentro de você.

jeudi 2 juin 2011

Arbre sec



Às vezes me dá tanto aperto no coração. Ver as coisas passarem, ver as pessoas passarem. Sentir que tudo e todos vão deixando devagarinho meu coração pra depois de um bom tempo voltar com uma apunhalada de surpresa. Daquelas que nem quem está com a faca nem quem foi ferido tinha a intenção de machucar ou sair machucado, e sim num pulo de excitação e ansiedade de maltratar de tanto amor.
Eu tenho tanto amor enroscado nas minhas entranhas, eu tenho tanto pra dar e eu só dou ódio e indiferença e as pessoas acham que eu sou imune a tudo mas na verdade é a falta de vocês. É a falta de vocês todos juntos naquela esquina sujando suas calças na calçada e fumando aqueles cigarros que cada um dava um pouquinho pra comprar. São vocês a minha falta e o meu amor me apunhala sempre que eu vejo fotos ou lembro dos momentos ou escuto as vozinhas de vocês falando em tons diferentes no mesmo momento. Eu não fui quase nada parte disso mas é tudo tão parte de mim. É tudo tão bonito e tão doente e tão ruim e tão amargo mas eu preciso dessa dor no meu peito e eu preciso viver assim porque eu sei que vocês não vão voltar pra mim, eu sei que eu os vejo fragmentados e em parte o meu amor ainda é o mesmo mas ele perde a intensidade. Eu preciso de todos vocês assim juntinhos debaixo de uma árvore seca com muita fumaça e muita saliva e vontade e preguiça e calor e tudo aquilo que eu só tive por tão pouco tempo mas que fez toda a diferença do mundo dentro de mim e agora eu sou só eu, sozinha. Eu sou só eu com esse pedacinho de mim que vocês criaram mas sozinha.

lundi 2 mai 2011

Salope

samedi 23 avril 2011

dimanche 27 mars 2011

Sensação de água fria nos dentes

Dorzinha, fresco
agonia, gosto
bom, mau

dimanche 30 janvier 2011

La gomme


Eu nunca gostei de goma de mascar.
Provavelmente pelo fato de que há sempre uma explosão de sabor quando é posta em contato com as papilas degustativas na parte superior da língua. Com o tempo talvez até você se apegue a essa borracha mastigável e colorida, de forma que fica difícil se livrar dela: começamos a brincar com a mesma, jogando-a de um lado para o outro da boca como se as bochechas brigassem para não ficarem com a mesma, jogando-a uma contra a outra, ou fazendo as tão famosas bolas quase transparentes enchidas por um rasgo na boca onde se sopra o ar.
Você pensa inúmeras vezes em jogá-la fora; mas o lixo é muito distante, ou a preguiça é maior, ou não deu a hora do almoço ainda e, enfim, lá ela continuará sem sequer saber que o seu juízo final está por vir.
A partir do momento que os maxilares finalmente se cansam da mastigação interminável e o sabor não passa de o da sua própria saliva, de repente seja esse o momento para finalmente descartar aquela goma que fora motivo de prazeres salivares no início.
Só momentos de prazeres salivares.
Depois eu compro outro.

dimanche 16 janvier 2011

Ressaca moral

Tem vezes que a única ação possível a ser tomada dentro do poço é cavar mais. A vida é um ciclo vicioso que te faz deparar sempre com um carrossel de emoções. É impossivel dar atenção a tudo e a todos quando você mesmo carece dela.
É como ir numa boate no inferno: você sabe onde está, mas simplesmente ignora jogando sua cabeça em cima de um alguém qualquer ou dentro de um copo de uísque. No dia seguinte, no entanto, além de estar no inferno vai bater aquela ressaca do capeta (sou boa com trocadilhos, pode falar).
Aceitar a si mesmo, à sua própria vida, não é nem um pouco fácil. Queremos sempre mais. Isso talvez seja o que nos põe para frente, mas ao mesmo tempo nos dá mais alguns metros de profundidade no poço.
Drogas, cânceres, libido a flor da pele e falhas de comunicação: tudo junto de forma sádica. E eu continuo dançando e enchendo a cara só me preparando para a porrada na cara que vai ser acordar no inferno. De ressaca.

jeudi 13 janvier 2011

Para uma avenca partindo

por Caio Fernando Abreu em O Ovo Apunhalado


Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.