lundi 9 mars 2009

#03

O ônibus balançava com brutalidade. O calor de trinta graus na sombra não ajudava aquela tarde à melhorar, felizmente ventava de leve e era a única coisa que havia de refrescante dentro do automóvel. Haviam dez pessoas no máximo, e o suor escorri na testa enrrugada do trocador; aquilo definitivamente não era para ele.
Uma garota confusa ofereceu-lhe dinheiro, e era tentador pegá-lo, mas o motorista estava de olho por causa da última vez que furtou algo.
Um garoto entrou, o ônibus todo olhou-o com desconfiança. Tinha um maço de cigarro nas mãos, louro natural nos cabelos, a pele levemente morena e no máximo doze anos na cara.
- Quanto é a passagem?
O trocador olhou-o de lado, abriu a boca, fechou, e finalmente disse.
- Dois e vinte - respondeu mau-humorado.
O garoto tirou uma nota de cinco reais da parte plástica do maço e lhe entregou, recebendo o troco em moedas de pequeno valor, pondo-as no bolso da bermuda larga.
Sentou-se na frente de uma menina de uniforme, o ônibus balançava com brutalidade e o calor agora entrava seco por sua janela.
Tirou a blusa, um alívio momentâneo tomou-lhe. Suas costas tinham queimaduras feias, mas não ardiam, não mais.
Um vendendor entrou no ônibus, limpando o suor debaixo do queixo. O ônibus balançava com brutalidade.
- Água um real!
- Me dá duas? - perguntou o menino, tirando uma nota de dois reais do mesmo bolinho de dinheiro dentro do plástico. Deu uma das garrafas para o trocador, sorrindo. Mas o ônibus balançava com brutalidade.
- Tá fresquinha, né?! Pra ver se você acorda! - riu ele.
O contador olhou para a garrafa, não sorriu, mas abriu-a com cuidado e bebeu.
O menino continuou sorrindo. Olhou para trás umas duas vezes, bebeu alguns goles d´água, coçou as queimaduras, sorriu.
Mas o ônibus balançava com brutalidade.

dimanche 8 mars 2009

Quote

"Sentindo os pequenos flocos tocando suas grossas camadas de roupas, ela não sentia mais frio, e sim quentura. Oh, o que poderia cortar o final congelante do outono de Londres?
“Amor”, pensou. “Ah, o meu amor”.
Nada mais fazia sentido. Havia se demorado tanto. Seu sentimento estava tão guardado, esperando um momento de frio desses para esquentá-la. E como ingrata ela havia sido. Precisava de algo, precisava de alguém. Não necessariamente de tocar nisso ou nessa pessoa, mas só pensar. Era o que lhe bastava, nada mais. Satisfazia-se com o fato de ser sempre amada dentro dela mesmo. Talvez até por ela mesma, mas isso era reflexão para um momento qualquer. Agora, ah, agora ela pensava nele. E como seu coração se enchia de felicidade. E como seus lábios ofegantes soltavam pequenas nuvens de fumaça gelada enquanto quase corria pelas ruas de Londres. E não sabia se estava bem, ou se estaria bem, só sabia que algo peculiarmente magnífico acontecia dentro dela.
Seus sapatos faziam barulhos suaves no chão congelado, sentia os cortes na boca, não sentia mais seus dedos. Mas estranhamente aquilo a fazia bem. Não precisava de nada, não precisava de roupas, nem de comida, nem de ar ou mesmo de um corpo. Precisava de amor. Ah, era só o que ela queria."

Queria escrever alguma coisa, mas não saiu nada. Lembrei desse trecho da história e, diga-mos que me faça bem.