mardi 8 décembre 2015

Violence


Violência é viver
contrapôr a ordem,
ser orgânico
Na coerção maquínica
corpos não se reconhecem
a dor é seiva viva
Do que nos alimenta
falta o entralaçar dos olhares
mas, cruamente, falta o próprio alimento
Privilégio não é levantar a voz
é continuar vivo -
que milagre!
No tanger das peles
não se sente mais nada;
gozo mecânico, alegria calculada
Preenchendo de vazio,
curando a doença com o frio,
voltando a pé pra casa - se houver casa
Privilégio é não morrer de fome
é sobreviver
violência parece pré requisito pra viver

mercredi 18 novembre 2015

Tomber amoureuse


"Você se apaixona muito fácil"
"Apaixono nada", pensei. Que bobeira. Como assim apaixono fácil? Às vezes tenho umas epifanias, uns tremeliques, um apertinho engraçado. Nada demais, todo mundo tem.
Conheci um menino. Ronaldo. 12 anos. Não sei se mora na rua mas está sempre nela. Encontrei ele três vezes na vida. Abraço ele forte, dou beijinhos no pescoço, finjo que fico brava quando ele mente dizendo que foi pra casa.
Hoje vou pra onde ele costuma ficar. Estou nervosa. Fiquei pensando em como vai ser nosso encontro, que queria levar um livro para lermos juntos, de que forma vou abraçá-lo e se dessa vez ele vai me contar um pouquinho mais sobre a sua vida.
Putz, acho que por isso dizem que me apaixono fácil.
Não é, então, um estado de espírito. É ser. Eu sou apaixonada.
Aceito, então. Me apaixono assim o tempo inteiro. Conto os minutos no relógio.

lundi 9 novembre 2015

L'affection est révolutionnaire


Você sabia que os índios sonham diferente?
Eles sonham com a unicidade, sendo e compartilhando do todo enquanto nós, ocidentais, sonhamos tão somente com nós mesmos. Qual a importância de se ver como um ser conectado ao todo e não descolado do resto? Numa estrutura onde somos impelidos a pensar sempre em nós mesmos em primeiro lugar, à competitividade e envoltos por um discurso meritocrático talvez a empatia e a conexão sensível com outros corpos seja realmente encarada como um defeito.
É incômodo ter que conviver com o julgamento alheio mas, aqui vai uma dica: nada do que você fizer vai ser suficiente para todo mundo. Queremos um mundo com mais amor e cuidado mas tememos sermos julgados como fracos ou vulneráveis quando amamos e nos damos. Nunca vamos ser absolutamente bem interpretados pelos outros porque só quem sabe exatamente o que se passa em nossas mentes (e corações) somos nós mesmos, e isso é positivo porque quem tem que saber se essas atitudes condizem com nossas visões de mundo somos nós, mais ninguém. Se desprender das amarras do julgamento alheio faz parte, essencialmente, da reestruturação do mundo que almejamos; caso contrário nunca saímos do lugar.
A cada novo passo quem não entende continuará sem entender - e consequentemente se afastará pelos preconceitos totalmente compreensíveis numa sociedade que dá tanto espaço para o pré julgamento -, preso nos medos e na insegurança. Quem compreender, no entanto, vai ser aproximar, admirar e, quem sabe, promover a mudança dentro de si e consequentemente no ambiente ao redor.
Efetuar a mudança é um processo que começa dentro, tratar bem o morador de rua ou o trocador do ônibus são pequenas coisas que fazem a diferença na nossa própria sensibilidade e na dos outros. Num mundo onde o individualismo reina para sustentar um sistema econômico que segrega as pessoas, distribuir sorrisos, abraços e valorizar as companhias são atitudes transgressoras. Se envolver com os outros (mesmo que momentaneamente), ouvir e trocar carinho são parte de uma revolução que começa dentro de nós e só semeia coisas boas no nosso entorno.
Pois então, o afeto é revolucionário. Não temos que temer o outro, não há o que temer. Há que se preocupar com a insensibilidade e o egocentrismo mas essas são coisas facilmente desarmáveis quando o encontro com o próximo se dá de coração aberto - e, sim!, mesmo que só de uma das partes. Faz parte da luta por menos desigualdade tratar as pessoas com mais carinho, menos orgulho e mais amor, porque somos fortes pra caralho quando amamos.

lundi 2 novembre 2015

Conseils par la vie


Fiz uma lista no início desse ano que vira e mexe redescubro e me ajuda em muitos sentidos. Vou compartilhá-la aqui e quem sabe não ajuda mais alguém, né. São coisas que aprendi vivendo e que costumam dar certo.

1. Acupuntura e medicina oriental
2. Para curar um amor impossível: três semanas curtindo o "luto" + estar com pessoas que você ama e conhecer gente nova
3. Viajar é o melhor remédio. Para tudo. Tudo.
4. Ser simpática, carinhosa e afetuosa quando gostar de alguém (mesmo que seja umx desconhecidx)
5. Exercício físico é segundo o melhor remédio para tudo (depois de viajar)
6. Dinheiro não importa quase nada.
7. Fazer o que se ama não tem preço.
8. Cozinhar com/para alguém é melhor do que sexo.
9. Espinhas passam.
10. Você só atrai outras pessoas quando está feliz consigo mesma. Se ame, se toque.
11. As outras mulheres são suas parceiras, não suas rivais.
12. Seja sincera consigo, com seus sentimentos, com os outros.
13. Uma vontade não é tão importante quanto o amor, carinho e respeito que você sente por quem você gosta. Vontade dá e passa.

mardi 22 septembre 2015

Aimer


Eu não entendo quem sente pela metade.
Quando eu sinto, sinto tudo, sinto (o) todo. O estômago embrulha, eu quero estar, quero ser. Me dá aquela aflição desesperada, aquele aperto no peito - a respiração prende involuntariamente.
Gostar não é só gostar, é se apaixonar loucamente, perdidamente, entorpecidamente. É implodir, despedaçar, estalar a vontade, potencializar o devir.
O encontro com o outro é sempre uma orgia de sensações que me comem de dentro da fora. E o aperto é proporcional a vontade de tocar, de olhar, de derramar as palavras, de trocar as vibrações angustiadas para que deem forma ao amor.
Que delícia! Encontro pessoas assim o tempo inteiro; furtivamente me embalam. Como pode? Se apaixonar tanto todos os dias por tantas pessoas. E o que fazer com essa sensação de querer estar perto sempre?
Ai, pra isso as viagens.
Esse aconchego de se estar perto o tempo inteiro, de se conhecer, de brigar, de beijar, fazer as pazes, abraçar forte, brincar com os corpos, com os olhares, com os toques. É assim com tanta gente!
Me perco no sentir. E me encontro também. Desesperada.

lundi 31 août 2015

Sonhos #2, #3, #4, #5 e #6


#2

[Sonequinha no ônibus]
Uma amiga minha estava grávida e super estressada com o nascimento do bebê. Mal via a hora da criança nascer.
Depois de muito desespero no momento do parto eis que nasce... um polvo! Um polvinho, todo molenga.
Seu companheiro fala:
- Porra Carol, eu não acredito que você pariu um polvo! Um polvo! Olha isso, brother, como assim um polvo?
- Ah vai tomar no seu cu, você tá falando mal do meu polvo? Olha como ele é maravilhoso! Você que é um escroto, vai se fuder.
Acordei.

#3

Fui numa feira erótica com meu companheiro.
Entre vibradores e cordas de bondage vi, linda, em cima de uma cama, a Stoya de lingerie tirando foto e dando autógrafo para os fãs. Claro que tive que ir.
Deitava na cama com ela pra pedir foto e começávamos a nos pegar. Ai. Que sonho.
Mas logo rolava uma batida policial no lugar. Eu me escondia num banheiro minúsculo e os canas começavam a bater na porta.
Vi um basculante minúsculo, subi no vaso sanitário e saí. Caí no mar; aparentemente a feira estava rolando em uma casa no meio do oceano.
Nadei um monte e cheguei num mosteiro. Um padre me esperava.
Acordei.

#4

[Acordando na barraca. Dormia acompanhada]
Eu fazia parte da Malhação (a novela), não sei se era atriz ou assistente de alguma coisa, talvez estagiária. Fomos fazer uma aparição numa comunidade e uma amiga era a protagonista da novela, todos queriam tirar fotos com ela.
Fazíamos uma festa muito louca, tinha passinho e música boa. Do nada sinto ela me abraçar. Penso: "Ô! A Paloma tá me abraçando"
[Nesse momento a pessoa que estava dormindo comigo na barraca (que tinha acabado de me abraçar) vira pro lado. Eu viro num movimento espontâneo pra dormir de conchinha, abraçando-a]
Penso: "Nossa, mas a Paloma tem a bundinha tão peludinha! Que estranho"
Acordei.

#5

Estava numa festa na casa de alguém. Via essa menina que há muito já vinha reparando. Nos olhamos, tentei flertar mas sou péssima nisso.
Em dado momento ela me chamou pra conversar com ela e um amigo gay no sofá. Deitamos uma do lado da outra e ficamos papeando até ela me beijar (yes!!).
Começamos a nos pegar. Ela pegou minha mão e pôs no seu peito. Logo em seguida falou pro menino que estava do seu lado:
- "Fulano, pega no meu pau"
O menino pôs a mão na sua genitália. Uns 25cm. Caí do sofá (no sonho).
Acordei.

#6

Estava em um quarto de hotel e limpava minha genitália compulsivamente. Alguma coisa parecia não querer sair.
Nisso aparece a prima de um amigo meu. Ela vira pra mim e fala:
- Não, você ta fazendo errado - e começa a se limpar com um papel na minha frente - Você tem que fazer assim, ó! Pra tirar todas as sementinhas.
Eu repetia o movimento.
Mais tarde no sonho eu ficava grávida.
[Encontrei com essa menina na Lapa dois dias depois. Ela riu do sonho. Depois engravidou e, pelo o que o primo dela me contou, parece que foi no mesmo dia em que eu contei o sonho]

lundi 24 août 2015

Parfum


Às vezes, nuns momentos aleatórios, eu descubro umas coisas engraçadas sobre cheiros. Durante muito tempo pensei saber qual era o cheiro do sexo de uma pessoa querida; num momento intimista comigo mesma, no entanto, descobri que era o cheiro do meu sexo, e não do dela.
Quando entrava no quarto dessa pessoa ou a abraçava sentia um segundo cheiro - maravilhoso! - até que descobri, entrando no quarto de outras pessoas queridas, que era só cheiro de cigarro e erva.
Num outro momento, ao acordar de manhã envolvida nos lençóis com um outro amor - que suava por conta do calor - me embreenhei nas suas tranças até chegar ao pescoço e foi um dos melhores cheiros que já senti. Hoje pela tarde, no entanto, abracei minha cabeça com os braços e pude sentir esse mesmo cheiro - o meu cheiro.
Talvez o nosso, mas prefiro que continue e pertença a mim. Assim me completar lânguida em mim mesma, nas memórias, no físico, no cheiro e no sabor; sou inteiramente minha.

lundi 1 juin 2015

Pela revolução da entrega



É importantíssimo se construir como ser político (num sentido bastante senso comum, nesse caso) numa sociedade que segrega e oprime minorias. É necessário se engajar, lutar, reconhecer seus privilégios, apoiar as lutas nas quais você não é protagonista e talvez mais do que isso, ter um dever: o de não se acomodar.
Um mundo que perpetua relações opressoras, no entanto, tem aspectos crucias para a manutenção da segregação, tais como o medo, a ignorância, a falta de tolerância e de empatia pelo outro, o egoísmo, a raiva, a expectativa e assim por diante. A hostilidade nos contamina e nos faz reproduzir, interna e externamente, o fato de sermos um sintoma dessa intoxicação contínua; exatamente por isso que lutamos - somos um sintoma de todo esse ódio.
O conhecimento nos proporciona a capacidade de compreender o porquê de algo estar errado ou de ser prejudicial, o problema é que esse esclarecimento pode se tornar nocivo à nossa sensibilidade. Ao nos depararmos com a complexidade de um problema e da dificuldade de solução deste, sentimos as mãos atadas, a garganta secar, o embrulho no estômago; o sentimento de impotência.
No processo de construção de um mundo mais harmônico e igualitário é preciso perceber que nós somos corpos moldados para o medo e o egoísmo. É preciso perceber que a angústia só se esvai quando somos também capazes de livrarmos do veneno tóxico que nos foi ensinado a engolir, e isso tem um viés extremamente espiritual.
O mal estar na civilização é um processo inconsciente e muitas vezes incontrolável. Perceber um erro (ou inúmeros) e ter a gana de fazer a diferença é essencial, mas talvez seja necessário se livrar do aspecto mais vil e perpetuador desse mal estar: a desarmonia conosco e (consequentemente) com o mundo ao nosso redor. Porque é assim que esses aspectos tão corrosivos conseguem se manter em vigor. Não adianta o conhecimento e a revolta às injustiças se não buscamos (por início, meio e fim) a harmonização dos corpos, o embate pode se fazer necessário (e, sim, ele é!) mas perde-se quando o foco deixa de ser o equilíbrio pleno. O presente é mais importante e cada segundo torna-se oportuno para a mudança frente a hegemonia.
Ter em mente que cada momento pode estar sendo desperdiçado pela dúvida e pela desarmonia nos faz perder nossa maior oportunidade de mudança: a conexão com o outro. Conexão essa que reformule nossas potências individuais e resignifique a indignação antes sentida, num processo não de silenciá-la mas de lhe reposicionar quanto aos pólos; trazer o negativo ao positivo no intuito de potencializar construções físicas e ideológicas como resistência à segregação e à opressão - e consequentemente ao mal estar na civilização - a fim de construir algo verdadeiramente digno das concepções de igualdade e amor ao próximo.