lundi 29 septembre 2008

#01

E se importava-se não mais sabia. Seus delicados pés encontravam-se brutamente quando os batia um contra o outro, no nervoso do frio grotesco.
Era bem tarde e o parquinho já não tinha mais crianças brincando. “Também, quem viria a um parque com esse frio?”, se perguntou, quase por um segundo pensando em desistir. Mas resistiu. Continuou batendo seus pés um contra o outro, devagar.
O vento cortava-lhe as bochechas, sentia o muco tentando engoli-la. Pigarreava uma, duas, três vezes e nada.
O céu estava nublado, bem diferente do de costume. Suas coxas, geladas, sofrendo com o vento, se mexiam rápido e agonizantemente.
Despertou de repente. Olhou, o céu ainda estava nublado. Bateu os pés. Dormiu.
Um pipoqueiro parou do seu lado: “Quer pipoca, menina?”, perguntou. Ela queria.
Meteu as mãos depressa no bolso esquerdo, depois no direito. Nada. Aquela esperança de comida talvez matasse sua agonia, mas não poderia comer, não tinha absolutamente nada para pagar o saquinho de pipoca.
O pipoqueiro, vendo o desespero sutil da menina, se sentou do lado dela.
“Vai me dar um saquinho de pipoca?”, pensou ela, quieta, sem mirar os olhos do senhor ao seu lado.
Ele puxou um relógio de bolso, marcando sete horas e doze minutos. Ela acordou.
Abriu os olhos, olhou o relógio, dormiu.
“Obrigada”, disse, com tremeliques.
A agonia já havia sumido, a partir dali ela poderia contar aos poucos o tempo (ou adivinhá-lo) para saber mais ou menos a hora. Pigarreou mais uma vez, só pra não perder o costume, e deu um sorrisinho de meia boca.
O pipoqueiro segurou no carrinho e saiu andando, sem dar uma única pipoca à menina.
“Sete e treze, devem ser agora”, pensou. “Já é tarde”.
Quase pensou em desistir de novo, mas tudo bem, agora não poderia mais sair dali. Seus pezinhos haviam parado de bater, o pigarro parou, só o que pôde sentir foi o frio grotesco.

samedi 27 septembre 2008

Reflexões, parte I

Antigamente eu me lembro de estar sempre calada, na minha. Normalmente o único ser com o qual eu tinha maiores diálogos era com a minha irmã, e mesmo assim naquela época ela era pequena, portanto ou não entendia nada ou saia correndo pra falar pra todo mundo. Eu gostava de escrever, secretamente gostava que as pessoas lessem o que eu escrevia, também, só pra saberem como estava me sentindo. Com um tempo, ser xingada, rirem de mim e me ignorarem já fazia parte da rotina. Eu não ligava muito, mesmo que não pareça eu acho que fui uma criança feliz. Passava praticamente todo o meu tempo na casa dos meus avós, dessa forma nunca poderia me queixar de não estarem me dando atenção.
Aos poucos eu comecei a crescer, as pessoas começam a falar que você não pode ser submisso nem ouvir calado, que você deve agir, ser você mesmo, defender seus ideais e não se deixar influenciar. Mesmo assim seria difícil largar minha vida silenciosa a uma na qual eu defendesse o que penso, dou respostas rápidas e... bem, vocês entenderam.
Recordando um post do Doug, percebo agora que realmente são as leis da selva, para sobrevivermos temos que aprender a magoar e a suportar mágoas.
Esse negócio de magoar não é comigo. Talvez não me sinta à vontade porque já fui tão magoada antes que não desejo isso pra ninguém, mas além de tudo, eu era uma criança relativamente forte. Tudo isso me fez fazer meio que uma bolha, a qual eu só saio quando realmente acho que está seguro. Sinceridade não é comigo. Não que eu seja uma pessoa mentirosa, acho que mentiras são coisas muito delicadas, mas sinceridade daquelas de você falar tudo o que pensa sem.. pensar no outro. Esse negócio de pensar no outro é difícil, difícil de verdade e admito (principalmente quando você já tem intimidade suficiente com uma pessoa a ponto de saber que não importa o que disser ela sempre estará ali), muitas vezes acabo não pensando no outro por... descuido. Na verdade, na maioria das vezes, penso em mim. Em como aconteceu isso e aquilo comigo, de como poderia ser melhor, de como sofro e idiotices do gênero. Não é verdade. Sofrer é pros fracos, eu sou forte. Ou penso que sou. Não sei se ser forte é retrucar comentários maldosos, é cair na porrada com os outros, é ser diferente pra tentar ser alguém e na verdade ser igualzinho a todo mundo. Penso mesmo se todo esse blá blá blá vai nos levar a algum lugar. Se amar fosse tão simples, porque o mundo é tão cheio de problemas? E a tal da paz? Se todos quiséssemos mesmo ela começaríamos dentro de nós mesmos, dentro de nossas casas, com nossos amigos, parentes e com qualquer ser humano a nossa volta. Somos pequenos hipócritas, na realidade, exigindo o que não temos de nossos superiores.

Afinal, do que adianta tudo isso?

mardi 9 septembre 2008

Narciso e Narciso

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.


Gullar.

lundi 1 septembre 2008

Corte-ei-me



"Por que você me deixa [...] descontrole? [...] tirar o ar do meu corpo [...] tocar. [...] o que incomoda essa sua cabeça confusa.
[...] aqui comigo. [...] talvez eu espere mais. [...] esperamos
[...] entenda. Sei lá.
Provavelmente [...] tanto que espero e minto para mim mesma diariamente [...]
amo."

Trechos de um texto beeem velhinho.