dimanche 26 juillet 2009

Talvez

eu esteja virando meio feminista. Ou não.

mercredi 22 juillet 2009

"Repetiu alto:

- Não, não, não é a minha vontade!
Persuadira-se de que essa era uma frase mágica que transformaria a situação imediatamente, mas nesse quarto as palavras perderam o poder mágico. Creio até que encorajaram o homem a mostrar-se ainda mais decidido: apertou-a contra o corpo e colocou a mão em seu seio.
Coisa estranha: esse contato libertou-a logo da angústia. Como se, com esse contato, o engenheiro tivesse descoberto seu corpo e ela tivesse compreendido que o que estava em jogo não era ela (não era sua alma) mas apenas seu corpo. Esse corpo que a traía e que ela havia expulsado para longe de si, para o meio de outros corpos." Kundera

mercredi 15 juillet 2009

Minhas pontas dos dedos

nos seus. Lento. Devagar. Incerto. Bem melhor do que gestos obscenos.

E de tanta saudade

apertando o meu peito dolorido, eu prefiro até me esquecer da sua existência: Eu talvez goste de sofrer.

mardi 14 juillet 2009

Pernas,

no feminino.

É desesperador

esse aperto na minha garganta, meus pulmões frágeis, minhas pernas nuas, minha doença mental idolatrada e essa lua cheia brilhando ferozmente para chamar sua atenção.

Repara que

mesmo com frio eu ainda posso te aquecer.

jeudi 9 juillet 2009

"Sua mãe bateu

a porta de casa cansada. Tinha os olhos baixos, os ombros curvados para frente e transbordava tristeza de sua alma.
Johanna poderia muito bem perguntar o que houve e escutar um “nada” em resposta. Mas ela não faria isso, nunca fazia. Sabia exatamente como sua mãe funcionava e o que ela desconhecia tinha medo de testar. Não porque poderia levar uma surra ou algo do gênero – sua mãe raramente lhe batia -, mas tinha medo de não conseguir entendê-la, da mesma forma que achava que a mãe não a entendia. Tinha um amor profundo por ela, mas era impossível demonstrá-lo. Na verdade não sabia porquê – nunca soube -, e tinha que confessar que isso não costumava preocupar sua cabeça. As coisas sempre foram assim, por que deveriam ser mudadas? Queria contar de várias coisas que lhe aconteciam: Do livro que lia na livraria do sr. Tonker, das aulas de inglês que assistia na escola vestida de menino porque meninas não podiam entrar, de como não gostava de ir mais na casa de seu avô porque lá exalava o cheiro de sua avó (e já havia sofrido demais com a sua partida anteriormente, para quê ir à lugares onde teria que suportar mais ainda essa dor?), de seu amor que sugava diariamente todas as energias de sua alma juvenil... mas como contar coisas dessas? Ela talvez não aprovasse, talvez brigasse, talvez não entendesse. Sempre que Johanna tentava falar sobre seus problemas com a mãe – o que devia fazer uns dois anos, no mínimo – sentia nunca estar sendo completamente compreendida. Vicent, pelo contrário, sempre escutava-a com atenção. Mas mesmo sendo um ótimo irmão, não tinha experiência o suficiente para lhe dar conselhos. E ela, também, nunca contaria de seu amor para ele. Parecia só... inadequado, talvez. Amigas também não serviam para essas coisas. Na verdade Johanna não tinha muitos amigos, era muito seletiva e nunca confiava muito nas pessoas por causa de histórias passadas. De qualquer forma, ela sentia-se muito insegura por guardar uma coisa tão grande dentro de si mesma. Por isso às vezes escrevia, para tentar descarregar toda tristeza e aflição que uma menina de catorze anos pode sentir. Talvez não era muito, talvez era por causa disso que não conversava com a mãe. Tinha catorze anos, seus problemas eram inúteis. Futuramente ela teria problemas sérios como dinheiro e filhos – mesmo não lhe agradando a idéia de pôr mais gente no mundo, principalmente porque percebia que em Londres as ruas lotadas eram absurdas. Em todo o caso, ela sabia que não poderia falar nada. Não agora, não para a mãe. Mas isso não diminuía seu amor, só deixava-o escondido numa caverna, no fundo do seu coração, esperando o inverno passar para sair de seu peito e aquecer as pessoas que realmente lhe importavam.
O problema era que esse inverno não acabava nunca."

07/09

mardi 7 juillet 2009

Pode começar?

Quer dizer, acho que tem muita gente aqui. Eu sempre fui meio tímida, sabe. Tá frio, você podia desligar o ar condicionado? Quer que eu fale? Mas eu não tenho muito pra falar. Eu, não sei, é esse machucado no meu rosto? Eu juro que não entrei numa briga, eu só caí no chão. Tá feio, minha mãe disse pra eu passar pomada porque tenho um rosto lindo. Sabe como são as mães, né, sempre achando os filhos lindos. Tirando ela algumas pessoas também disseram que eu era bonita. Mas, sabe, eu nunca confio muito. Principalmente agora que tô com isso na cara. Tá feio mesmo. Acho que tô fugindo do foco, o que era pra falar, mesmo? Eu não gosto muito de falar, sabe, eu sempre acabo machucando as pessoas. Às vezes eu nem sei porque falo as coisas, não querendo machucar, entende? Tem conversas que eu tenho com gente que eu amo muito e mesmo assim eu sei que posso omitir um comentário ou observação mas eu tenho sempre que fazê-lo. E eu odeio quando fazem comigo. É meio que segredo, mas eu morro de ciúmes de um monte de gente. Um monte mesmo. Até de gente que eu finjo odiar. Quer dizer, eu nunca odiei ninguém, eu acho. Odiar é uma coisa muito forte, só que já tá meio banalizado. É que nem amar, todo mundo odeia e todo mundo ama. É estranho.
Quê? Acabou meu tempo. Ah, desculpe, esse machucado deve estar incomodando.

Tem gente batendo na porta,

sai de cima de mim, esconde essa garrafa, tira a voz do Chico Buarque, joga fora esse maço, lava as mãos, arruma o sofá, abre a janela, não se esquece que a sua camisa tá debaixo da mesa, enxuga o rosto, tira esse gosto da sua boca, e aproveita da minha também, larga a minha mão, não! café é suspeito demais, eu não acho meus brincos em lugar algum, esse cheiro tá insuportável, liga o ventilador, come alguma coisa, já disse pra esconder essa garrafa, tem gente batendo na porta. Acorda. Acorda. Eu preciso da chave, acorda.