mercredi 22 juin 2016

Le féminin sacré


Aqui algumas reflexões sobre o "sagrado feminino".
Em algum momento li "Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura?" de Sherry Ortner, onde ela que diz que enquanto o corpo biológico masculino é projetado para ele mesmo, o corpo biológico feminino é projetado para outro ser, para uma criança que está por vir, para a natureza. Os processos que vivemos relacionados ao útero são dolorosos e desgastantes durante a vida: a menstruação (pré, durante e pós), a gestação, parir, a lactação e a menopausa.
Existe aí, sim, algo que grita e que não é nosso. Como se o bom funcionamento do corpo fosse interrompido por uma doença súbita, algo que nos põe de cama, nos deixa com cólica, estressadas ou tristes. Esses processos acontecem quando adoecemos e muitas de nós passam por eles mensalmente - a interrupção do "correto" funcionamento corporal.
Não por esse "chamado da natureza", no entanto, que me parece correto crer que temos algo ~essencial~ que pessoas dotadas de um corpo biológico masculino não teriam. Entendo que certas vertentes filosóficas e religiosas entendem o "masculino" e o "feminino" não nas limitações que nossos processos culturais os encaixam, mas como forças opostas que se entrelaçam e se equilibram. Talvez nosso erro seja exatamente associar tão pura e cruamente aspectos tão complexos a corpos biológicos.
Homens com um instinto mais maternal do que mulheres, mulheres com uma competitividade mais acirrada que homens, homens que sofrem dores e fadigas constantes, mulheres que se sentem confortáveis com seus próprios corpos e atividades, homens que se sentem conectados com o todo, mulheres que se sentem descoladas desse mesmo todo. Somos múltiplos. Não é um "chamado da natureza", um sangramento mensal, que nos faz ter um tipo de psique ou uma tendência para tal mais inclinada. Não é não termos um útero que nos faz, também, desconexo dessa complexidade e conectividade que é a natureza, o corpo e quiçá um espírito.
Aprisionar questões tão amplas a fisiologias tão ridiculamente diferenciadas é limitar a explosão de saberes e intuições que cabem em um ser humano. Se a "força feminina" e a "força masculina" são usadas apenas como analogias (poderíamos dizer ying yang, etc) então é uma péssima analogia - por que não analisar, então, os extremos em si ao invés de compará-los à fisiologia? A generosidade e o egoísmo, a agilidade e a languidez e não associar à coisas materiais tais como um sistema reprodutor.
O discurso do sagrado feminino recoloca as pessoas dotadas de um corpo biológico feminino na posição de submissão (agora não só física e moral, mas também ~espiritual~, porque ~é seu papel~) e dessensibiliza as pessoas dotadas de um corpo biológico masculino, julgando-os incapazes de se conectarem com papéis que não estão associados à sua força viril, altiva, ágil e dominadora.
Vamos ter cuidado para não acharmos outras formas de limitarmos os seres humanos. Expandir e agregar é o caminho, não achar outras formas de nos podarmos.
Uma pequena observação: Esse processo não exclui espaços de encontro dos femininos. Espaços de troca, de sororidade, de amor, generosidade e, principalmente, ligado à feminilidade enquanto construção e não enquanto fisiologia. É só uma crítica ao "devir mulher" enquanto corpo biológico, não entendendo que vem da construção nossa identificação enquanto tais.