samedi 14 janvier 2012

Dona Formiguinha


Quando ela desligou o telefone percebeu que as coisas já não eram mais as mesmas. Semana passada ela havia jogado fora dois potes enormes de macarrão feitos na hora. E, sim, se arrependeu demais. Dona Formiguinha já estava bem velhinha, mas gente velha não joga fora macarrão fresco. Ficou nervosa, mas não havia mais como restituir-se de toda aquela massa agora descansando no lixo. A ansiedade lhe bateu de supetão.
Uns dias antes no entanto, perto do dia de natal, ela havia comprado umas lembrancinhas com o marido para as netas. Eram umas fofurinhas, mas por conta de sua idade avançada se esquecera rapidamente do que tinha comprado. Quando a neta primogênita, Carla Alberta, foi visita-la, seu coração de senhorinha começou a palpitar, lembrando que comprara algumas lembrancinhas para ela, mas não se recordando do que se tratavam. Dona Formiguinha ficou ansiosa e levou a neta para abrirem juntas os presentes sem que seu marido, Seu Bentinho, descobrisse. A neta não entendeu nada, mas já sabia que tinha que ter paciência com sua vozinha. Ela abriu um dos presentes, mostrou-lhe e fechou-o novamente.
Dona Formiguinha estava começando a ficar confusa. Fazia coisas sem pensar, se arrependia depois. Certa vez ela, com uma bolha no pé, pegou o barbeador de Seu Bentinho e rapou-lhe a calosidade. Machucou-se feio e levou uma baita bronca do marido, o que a fez se sentir tão mal que precisou pôr uma colherinha de açúcar na boca pra desestressar. Ah!, a senhorinha era um pouco diabética então esse era o tipo da coisa que só piorava sua mente e seu corpo.
Aos poucos Dona Formiguinha ia ficando com umas atitudes engraçadas. Ela foi a vida toda uma mulher séria e trabalhadora, mas agora estava frágil e inconstante. Carla Alberta, que sempre passou muito tempo com a avó, a sentia cada vez mais distante, delicada e fraca. Sua irmã mais nova, Ana Beatriz, nem se metia mais na casa dos avós a não ser que fosse com mãe e pai presentes e numa situação das bem específicas. Mas Carla Alberta ia lá toda a semana. No início, quando todos estavam conversando sobre a doença de Dona Formiguinha, ela chorou demais. Chorava todas as noites, chorava no telefone, pensava em todo o amor que havia dentro dela e que pertencia exclusivamente à sua avó. A senhorinha sempre foi o ser que ela mais amou: mais que mãe, pai, irmã e namorado. Dona Formiguinha vinha sempre em primeiro lugar, porque sempre a amou muito e a mimou muito e fez muita comidinha gostosa para ela. Dona Formiguinha tinha essa ligação estreita com a infância de Carla Alberta, era como se fossem uma coisa só.
No entanto certo dia, depois de desligar o telefone com sua avó, percebeu o que talvez tenha sido a última pessoa a perceber: Dona Formiguinha não era mais sua avó. Dona Formiguinha não a olhava com os mesmos olhos, não lhe fazia mais comida, não cantava mais suas cantigas gaúchas, não sabia mais de sua vida. Dona Formiguinha estava se esquecendo tão rápido das coisas que talvez tenha acontecido o efeito contrário: as outras pessoas é que se esqueceram dela. Carla Alberta percebeu que, junto com sua infância, foi-se também sua vozinha. Aquela criaturinha linda e clarinha e séria e trabalhadora, vestindo suas camisolinhas cor-de-rosa, com os cabelos grisalhos em corte joãozinho e lhe chamando pelo nome não existia mais. O que restara agora era uma senhorinha muito bonita, mas muito fraca, muito significante, mas muito dolorida, muito doce, mas muito esquecida. O alzheimer havia lhe roubado a infância e, junto dela, os belos olhos castanhos e brilhantes de Dona Formiguinha.

vendredi 6 janvier 2012

Complète


Ela acordou com o sol, do lado o tal do amor da vida dela enfiava a cabeça no travesseiro. Deu uma agulhada na garganta por causa de tanto cigarro da noite passado.
Juntava as roupas, ajeitava os livros, ia beber água, respirava com dificuldade.
E bateu de súbito, naquelas seis e quinze da manhã, uma gratidão esplêndida de corpo e alma. Corpo e alma, sim, porque ela aos poucos beijou cada um de seus dedos e as palmas das mãos, tudo pela luz da cozinha. E tocou o corpo, pegou em sua cintura, afagou os cabelos, lambeu os lábios.
Sentia-se.
Sentia-se perfeita e intocável, acordada pelos raios de sol da manhã. Sentia-se envolvida, inteira, forte e ao mesmo tempo frágil. Tocava-se, devagar, rápido, com força e com delicadeza. A pele, os ossos, os músculos, a gordura, os órgãos, as juntas, os cabelos. Tudo. Tudo em perfeita harmonia num corpo feminino. Não que fosse feminina, só às vezes era, mas via-se como mulher. Como fruto de uma mãe natureza cuidadosa e delicada.
Pisou nas pontas dos pés, se deliciou com seu cheiro, deu umas voltas e hesitou por quase cair.
Sentia-se, inteira.