samedi 13 octobre 2012

Barca velha


Normalmente quando eu estou atrasada pra aula pego a barca nova. A barca nova é bem mais rápida que a antiga, mas em compensação é toda fechada. Quando eu pego a barca nova tento ficar em pé do lado de uma janelinha pra pegar um pouco do vento da Baía de Guanabara e de quebra olhar pra paisagem do Rio ao entardecer.
Quando eu pego a barca nova fico pensando sempre no quanto estou atrasada. Às vezes penso na vida, tento resolver algum problema.. A barca nova é como um ônibus, talvez. É muito bom pensar a vida nos meios de transporte.
Mas tem dias, e eu confesso que são raros, que eu pego a barca velha. Normalmente eu também estou atrasada, mas me permito vez ou outra a ir na Ipanema (é o nome da barca velha). E, sim, eu me permito porque quando a pego não faço simplesmente uma travessia da Baía de Guanabara. Quando eu pego a barca velha é quase como uma experiência transcendental.
Transcendental porque dá pra você ficar sentado (no chão) na parte da frente da barca. Quando ela vira, você vê sua chegada aos poucos, pela água. Quando eu vou normalmente o sol está se pondo então a vista é simplesmente esplêndida. Quando eu pego a Ipanema, diferentemente da barca nova (que nem tem nome), eu não penso. É quase como uma meditação. Eu só consigo olhar pra frente, olhar pro céu, olhar pra água. Nesse momento (nesses vinte minutos de travessia) eu não penso em nada. E, veja, é um dos melhores momentos do meu mês. É um momento só meu, eu não tenho vontade de dividir com absolutamente ninguém (mãe, pai, irmã, namorado, amiga, etc etc), eu só quero viver aquilo, como se aquele céu e aquela vista fosse só minha, um segredo, um momento eternizado comigo mesma.
É uma pena que normalmente eu esteja atrasada e só pegue a barca nova.