mardi 13 septembre 2011

Dançando na Primavera


Ana Primavera havia feito dezesseis anos naquele ano e, de uma hora para outra, respirava um ar mais leve. Vestia todo verão aquele mesmo vestido amarelo acima dos joelhos e suas sandálias rasteiras mostrando as unhas dos pés pintadas de azul. Tinha olheiras porque acordava cedo para ir à praia e dormia tarde para fazer amor. Amor este que tinha o nome de Samuel da Dança, que no verão continuava usando as calças jeans por ter vergonha da magreza das pernas. E nos pés uns chinelos de cor escura porque de colorida já bastava Ana Primavera.
Samuel da Dança queria pedir seu amor em casamento dali a dois anos. Tinha um coração mole e escrevia poemas desesperados e canções alucinadas à Ana Primavera. Curiosamente esta só mostrava-lhe os dentes perfeitos que se escondiam por toda a carne de sua boca, quando virava os olhinhos e voltava a conversar sobre qualquer coisa. O rapaz esperava um amor tão grande quanto o seu em troca, mas ela só lhe dava beijinhos pescoço acima e instantaneamente tudo ficava gostoso, quase como chocolate em pó de manhã antes da escola.
Certo dia Ana Primavera chegou mais cedo da praia, cheia de areia mas seca, seca.
- Samuel, meu amor, venha cá.
Falou-lhe de tudo. Falou que seus dezoito anos estavam por vir, falou que queria viajar, falou que queria ter filhos em outro país e que queria uma fazenda no interior do Uruguai aos trinta. Falou que queria falar doze línguas, que queria muitos amigos, que queria viajar de avião e comprar um fusca.
Samuel da Dança olhou para ela com toda a candura do mundo.
Foi quando falou-lhe que queria terminar a faculdade de direito, fazer um escritório pequenininho no centro da cidade, ajudar a mãe, morar num sobrado em Santa Teresa e ler o jornal todo dia no café-da-manhã.
- Ana - prosseguiu - o que eu quero dizer é que eu também sonhei tudo isso pra mim. E tudo isso eu quero. E eu quero que tudo que você sonhou pra você também se realize. Mas, minha flor, eu não posso desistir de mim pra me dar pra você porque eu preciso me amar e me cuidar pra amar e cuidar de você. Vai, vai atrás de você mesma que eu te quero livre.
Foi assim que Ana Primavera e Samuel da Dança experimentaram do amor pela primeira vez. Ela dirigindo seu fusca rumo à sua fazenda no Uruguai e ele fechando o escritório para dormir descansado em Santa Teresa.

1 commentaires:

Erik Temporal a dit…

que fofa. uma historinha inspirada no meu filme favorito. boa.