jeudi 27 octobre 2016

Auto declaração


Quem me conhece sabe que eu detesto a academia.
Detesto as notas A B C D das revistas, o desmembramento de trabalhos extensos em pequenos artigos para mais publicações, a orientação de alunos da graduação para adicionar ao currículo, a luta de ego nos departamentos. Longe de mim me tornar uma escrava-textual da Plataforma Lattes.
Entretanto, para não se ganhar novecentos e oitenta reais com meia matrícula trabalhando no estado do Rio, precisamos fazer algumas concessões tais como entrar num mestrado e num doutorado correndo para sermos minimamente reconhecidas/os.
Foi nessa odisséia moderna que me predispus a fazer uma pós-graduação em sociologia. Maior correria. Deixei tudo para a última hora, me derreti nas ruas do centro para tirar foto 3x4, imprimir históricos e certificados e paguei a inscrição no susto.
No momento da inscrição, no entanto, descubro que o pagamento estava errado - o número de referência não batia com o do departamento. Pééééééé, não fui aceita. A secretária que coordenava as inscrições deu início ao seguinte diálogo:
- Você não pode se inscrever. Não posso aceitar esse pagamento, o número está errado.
- Mas não tem nada que eu possa fazer?
- Não, a data final era até hoje e já são cinco horas, eu vou fechar a sala. Nem se você for no banco agora daria pra pagar.
- E eu nem tenho esse dinheiro (risos).
- Mas você pode se inscrever por cotas.

Ok.
Eu ouvi isso?
O edital descrevia o processo da seguinte forma:
"3.4 Os candidatos interessados em concorrer às vagas destinadas às cotas raciais/política de ingresso afirmativo deverão indicar sua opção, condicionada à sua auto-declaração como negro. Os candidatos que decidirem por esta opção serão definidos como optantes e passarão por todas as etapas do processo seletivo estabelecidas neste edital;
3.5 Candidatos/as optantes estão isentos da taxa de inscrição."

Respondi, educamente:

- Nem tenho como, né (riso seco) - e apontei para minha própria cara
- É, mas a cota é auto declarada. Você pode se auto declarar.

Que tristeza.
Lembram quando eu falei logo ali em cima que eu detesto a academia?
Detesto a academia porque são esses os comportamentos vigentes cotidianamente. "Ok, você não pode burlar a burocracia, a burocracia é muito importante. Mas, olha aqui, você pode concorrer dentro da política de cotas, dentro da política que é feita para a inserção dos que realmente não têm acesso à educação. Não tem problema, é um jeitinho, não importa se você é a menina-branca-classe-média-que-sempre-estudou-em-colégio-particular/federal-e-nunca-teve-que-trabalhar-para-pagar-passagem-e-alimentação-na-faculdade". Foi isso, não tão implícito quanto talvez gostaria, o que ela me disse.
A estrutura do sistema acadêmico (fundamental, médio, universitário, particular ou público) é racista, é meritocrática e faz a manutenção das classes sociais. Vai ter aluno preto na pós-graduação falando de políticas de cota em mestrados e doutorados nas universidades federais, quer dizer, vai ter aluno preto falando disso se a aluna branca não resolver concorrer junto com ele porque pagou errado o boleto.
A academia é um monte de discurso, um monte de estudos, um monte de artigo publicado em revista com nota alta para, na prática, ser tudo aquilo que pretende desconstruir. A academia se apoia em modelos antigos, não igualitários, injustos e carregados da velha burocracia que atrapalha a vida principalmente das pessoas pobres e com menos acesso a ela. A academia critica a postura do professor em sala de aula, fala de uma educação ~desconstruidona~ e faz exatamente o contrário: perpetua o velho modelo de educação do século XIX.

0 commentaires: