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Patience

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 Eu fico impressionada com a sua paciência. Não sei quanto tempo você ficou pensando em me escrever, mas eu confesso que fiquei surpresa. Não sei se mexeu com você me ver depois de tantos anos, ainda mais na festa temática em que estávamos. E mais uma vez, não sei como, dou conta de saber das preferências sexuais de uma pessoa que não vejo há muito tempo. Fico me perguntando se isso ainda vai acontecer muitas vezes comigo. Você é tão paciente e tão atento que me dá até calafrios. Tem alguma coisa de calculista no seu jeito e eu acho isso muito sensual. Eu nunca olhei pra você com esse olhar, mas definitivamente a coisa que mais me tira do sério é quando alguém me olha como você me olhava. Eu gosto dessa sensação hipnotizante em que o tesão sobe até a garganta e embrulha o estômago. Gosto quando você não trocou meia dúzia de palavras com a pessoa, mas está lá imaginando todas as situações possíveis onde você pode se ajoelhar aos pés dela e lambê-la até a boca secar só por uma única ...

apathie

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Eu só consigo escrever em tema escuro. Ainda mais porque estou sem óculos. Segunda-feira, onze horas e sete minutos. Estou com sono. já. As últimas semanas foram de loucura intensa. A vida está cheia de acontecimentos. Conto alguns interessantes: propostas de trabalho no exterior, aprendizados relevantes e significativos no trabalho atual, novas amigas e saídas agradáveis com estranhas do whatsapp, um ménage que saiu pela culatra e remexeu toda a base romântica da minha vida, um câncer parcialmente tratado, uma morte. São tantas coisas e tantas delas tão absurdas e fantásticas... e ainda assim de uma forma estranha me sinto anestesiada da vida. Me sinto experimentando apenas a casca grossa que é o corpo humano. Senti dor essas últimas semanas, com as questões do coração, mas antes disso eu só sentia tédio. E uma pitada de arrogância. Tenho sentido uns prazeres da carne, tipo andar de bicicleta, fazer depilação a laser, fazer sexo e comer chocolate. Mas são prazeres com início, meio e f...

Baco Exu do Blues por Nina Simone

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  Acabei de trocar Baco Exu do Blues por Nine Simone. Hoje eu preciso 1. corrigir artigo para publicação, 2. preparar aulas de terça-feira, 3. fazer compras, 4. cozinhar alguma coisa pra semana Já pensei centenas de vezes em sair de casa pra ir ao supermercado, mas simplesmente não consigo. Fico ansiosa com o fato de ter que sair na rua. O que eu sinto é que estou definhando, porque ao mesmo tempo que me sinto presa nesse apartamento também não sinto coragem pra sair. Sinto vontade de chorar quando penso nisso... que não consigo ter forças nem pra ir no mercado. Eu pensei que depois do recesso (delicioso) que tive, um pouco desse mal estar ia passar, mas assim que pisei em casa parece que fui inundada pelo mesmo mal estar novamente. É, estranhamente, exatamente o mesmo mal estar e isso me dá vontade de chorar. [15:30] Consegui ir no mercado (e cheguei chorando em casa) e demorei bastante, mas consegui editar uma parte do meu artigo.

Sortir

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Hoje eu acordei com o coração meio acelerado. Chove bastante, mas faz calor nos últimos dias. Sinto uma euforia engraçada dentro do peito.  [...] A meta desse ano é uma e só uma: ir embora daqui. É a única coisa que quero, que peço loucamente diariamente. Quero ir embora. Quero ir embora. Quero ir embora. Prometi pra mim mesma que vou trabalhar e estudar incansavelmente até conseguir. Vou fazer tudo o que posso. De alguma forma eu vou sair.

La nouvelle normalité

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Fico me perguntando se vou me lembrar de verdade de tudo o que aconteceu nos anos de pandemia e nos processos que rolaram durante esse período. Tanta coisa aconteceu que já não sei se me reconheço bem. De todas as coisas narradas aqui percebo que já sou tão outra, ou tantas outras, que o momento de retorno ao "novo normal" parece um abismo profundo, povoado de névoas e fragmentos abstratos. Me pego num ápice estranho da vida adulta: as contas já não são mais novidade e não assustam tanto, os afazeres domésticos são empurrados até que possam ser feitos no limiar do tolerável, a comida está bem feita e me sinto saudável por dentro, a rotina é macia e delicada, previsível e acolhedora, com pequenos toques abrasivos que circundam o marasmo. Nos últimos dois finais de semana senti genuíno tédio. O tédio que me carrega diretamente para os meus oito ou nove anos de idade nas tardes quentes em um apartamento em Copacabana. A televisão ligada, a água com gelo, o suor na testa. Tédio, ...

Carta pra você, Ale

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Oi Ale, Hoje eu sonhei com você depois de muito tempo sem que você entrasse nos meus sonhos. Quando a gente se encontrava você estava bem triste porque tinha terminado um relacionamento. Você estava com uns amigos, também (e eles eram bem humorados e tentavam te botar pra cima), mas você só queria e precisava desabafar. A gente andava junto por uma cidade à noite. Entramos em um lugar que parecia um desses labirintos de mentirinha. Você me falava dos seus sentimentos e eu praticamente só ouvia. Você foi meu primeiro amor romântico. Eu não sei se você sabe disso e também não sei se vou conseguir voltar a falar com você. Não sei onde você está, não sei seu cheiro, não me lembro nem bem o tom da sua voz. Eu só sei que existe um pedaço enorme de você no meu coração. Todas as cartinhas que eu mandei, livro, os pedacinhos de cabelo. Não sei o que foi tudo aquilo, não tenho rastro nenhum de nada do que escrevi ou te falei. A única memória que eu tenho é revisitar meus sentimentos e pensar no ...

Entre la peur et la plénitude

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Um balanço tênue e irremediável circundam o pavor e a plenitude. É estranho saber que ser humano é fazer parte de uma catástrofe anunciada. Viver dias de gozo e dias de tristeza alternados parecem fazer parte da existência. Senti hoje um aperto ao ir no supermercado, ao ler as notícias, ao saber que 40% dos brasileiros vivem em situação de risco alimentar. Me sinto feliz com as coisas que conquistei, mas tão desesperada e triste pelo o que nos tornamos. Pelo o que colhemos enquanto humanidade desde o início dos tempos. Me sinto afundada no meu próprio ser e na minha própria glória, comemorando meus esforços pequeninos no meio de um incêndio. Não tenho mais vontade de andar pela cidade ou de fazer as coisas do dia a dia. Parece que me acomodei na concha pequena e dura do isolamento e do fim em mim mesma. Sou um grãozinho de areia num universo de dor. Afinal, sou gente.