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Dona Formiguinha

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Quando ela desligou o telefone percebeu que as coisas já não eram mais as mesmas. Semana passada ela havia jogado fora dois potes enormes de macarrão feitos na hora. E, sim, se arrependeu demais. Dona Formiguinha já estava bem velhinha, mas gente velha não joga fora macarrão fresco. Ficou nervosa, mas não havia mais como restituir-se de toda aquela massa agora descansando no lixo. A ansiedade lhe bateu de supetão. Uns dias antes no entanto, perto do dia de natal, ela havia comprado umas lembrancinhas com o marido para as netas. Eram umas fofurinhas, mas por conta de sua idade avançada se esquecera rapidamente do que tinha comprado. Quando a neta primogênita, Carla Alberta, foi visita-la, seu coração de senhorinha começou a palpitar, lembrando que comprara algumas lembrancinhas para ela, mas não se recordando do que se tratavam. Dona Formiguinha ficou ansiosa e levou a neta para abrirem juntas os presentes sem que seu marido, Seu Bentinho, descobrisse. A neta não entendeu nada, mas já...

Complète

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Ela acordou com o sol, do lado o tal do amor da vida dela enfiava a cabeça no travesseiro. Deu uma agulhada na garganta por causa de tanto cigarro da noite passado. Juntava as roupas, ajeitava os livros, ia beber água, respirava com dificuldade. E bateu de súbito, naquelas seis e quinze da manhã, uma gratidão esplêndida de corpo e alma. Corpo e alma, sim, porque ela aos poucos beijou cada um de seus dedos e as palmas das mãos, tudo pela luz da cozinha. E tocou o corpo, pegou em sua cintura, afagou os cabelos, lambeu os lábios. Sentia-se. Sentia-se perfeita e intocável, acordada pelos raios de sol da manhã. Sentia-se envolvida, inteira, forte e ao mesmo tempo frágil. Tocava-se, devagar, rápido, com força e com delicadeza. A pele, os ossos, os músculos, a gordura, os órgãos, as juntas, os cabelos. Tudo. Tudo em perfeita harmonia num corpo feminino. Não que fosse feminina, só às vezes era, mas via-se como mulher. Como fruto de uma mãe natureza cuidadosa e delicada. Pisou nas ponta...

Verbe

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É absolutamente visível toda essa particularidade sua, absurda e toda essa dor corrosiva esse medo longínquo de se encarar de frente É comparável à minha talvez auto-crítica física invisível inexistente materialmente, mas de forma ou outra existe, dentro, afundada nas entranhas relembrada religiosamente É compreensível e até adorável mas de sentimentalismo e delicadeza, o mundo não quer mais nem ele nem gente gente assim, eu, e é dessa delicadeza morta desse sentimentalismo falso de todo esse amor perfeccionista e essa falta do verbo amar Porque se fala de amor se fala de querer e de gostar mas não se fala do verbo amar, não é proveitoso não é bonito o suficiente não é egoísta o bastante e o amor é esse amor mesquinho a paixão incandescente doentia recalcada com os olhos nas almas alheias com a mente nos sorrisos terceiros nos montes de mentiras que sabem todos sua cruel realidade Fale comigo do verbo amar não do amor louco, fogo, paixão e devoção eterna, diga só que pre...

Sobre humor e políticos

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A cada dia que passa parece que mais se polemiza a infelicidade no comentário de Rafinha Bastos no último CQC em que ainda estava como apresentador. Vejo com muita freqüência montes de imagens e gente discutindo o assunto em sites como o Facebook e sites de notícia. Mas, afinal, o que causou tanto rebuliço assim?                Teoricamente, a frase que teria desencadeado tudo isso seria ele se referindo à Wanessa Camargo grávida: “Eu comeria ela e o bebê”. O marido da então cantora teria um certo poder em relação a Band e ameaçou tirar dinheiro que tinha investido ali. O canal tirou imediatamente o humorista do canal e daí surgiram todos esses “movimentos” virtuais criticando ou apoiando Rafinha. O ponto principal disso tudo não é esse exclusivo comentário relacionado à Wanessa Camargo e seu maridão rico. É óbvio que ele só foi retirado do programa porque tinha muito dinheiro e poder envolvido nisso tudo. As...

Prendre soin de soi

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Às vezes é impressionante o quanto a vida muda em questão de segundos. Um segundo você está voltando pra casa de moto, no outro está sem um dedo. Um segundo você está trepando, no outro está grávida. Um segundo você está sóbrio, no outro entrando em coma alcoólico. Talvez as decisões mais importantes da vida sejam tomadas em segundos: é o "não, vou respeitar a sinalização" ou o "não, querido, se não tem camisinha a gente deixa pra lá" ou até o "parei de beber, já foram três cascos". E não adianta o pensamento "pós-merda" do tipo "ah, mas eu pensei em fazer isso", "poxa, mas eu quis agir dessa forma", "não, é que estavam forçando muito a barra" porque depois não tem mais volta. Fico impressionada com o quanto decisões sérias são vistas como desnecessárias em várias ocasiões. Afinal, é chato pra caralho ficar colocando capacete e demorar mais tempo pra chegar em casa por conta da sinalização correta, ou esperar o mo...

Sobre falta de dedos

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Faz algum tempo que, depois de um puta show que fui e dei carona a dois amigos no carro do meu pai, terminou em dor de cabeça. Ao seguirmos alguns metros para deixar a primeira pessoa, esta me abre a porta do carro (a menos de um metro da calçada) sem olhar, quando uma moto passa por esse mesmo espaço mínimo. O que se procedeu foi o dedo da menina, que estava no carona da moto, esmagado. Eu e meu pai a levamos a um hospital perto, no meio de gemidos dignos de uma cadela no cio e uma velocidade suficiente para posteriores multas de trânsito. A ficha foi preenchida, a mulher atendida e o motoqueiro e o namorado da “desdedada” chegaram. Fomos embora deixando telefones para algum problema que poderia aparecer depois. Eis que resolve nos ligar, uma semana depois, a menina sem dedo falando que já havia gastado duzentos reais em medicamentos até o dado momento e exigindo o depósito de alguma quantia para ajudá-la a pagar os remédios. Meu pai sempre teve um coração de ouro e não poupou esfor...

Dançando na Primavera

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Ana Primavera havia feito dezesseis anos naquele ano e, de uma hora para outra, respirava um ar mais leve. Vestia todo verão aquele mesmo vestido amarelo acima dos joelhos e suas sandálias rasteiras mostrando as unhas dos pés pintadas de azul. Tinha olheiras porque acordava cedo para ir à praia e dormia tarde para fazer amor. Amor este que tinha o nome de Samuel da Dança, que no verão continuava usando as calças jeans por ter vergonha da magreza das pernas. E nos pés uns chinelos de cor escura porque de colorida já bastava Ana Primavera. Samuel da Dança queria pedir seu amor em casamento dali a dois anos. Tinha um coração mole e escrevia poemas desesperados e canções alucinadas à Ana Primavera. Curiosamente esta só mostrava-lhe os dentes perfeitos que se escondiam por toda a carne de sua boca, quando virava os olhinhos e voltava a conversar sobre qualquer coisa. O rapaz esperava um amor tão grande quanto o seu em troca, mas ela só lhe dava beijinhos pescoço acima e instantaneamen...